|
A Roda da Medicina: tecnologia espiritual dos povos nativos das Américas
Está claro que não era eu quem curava. Era o poder do mundo do fora. As visões e cerimônias tinham apenas feito em mim um buraco através do qual o poder podia passar para os duas-pernas. Se eu pensava que eu mesmo o fazia, o buraco se fechava e nenhum poder passava” Black Elk Speaks
Quero falar de um aspecto da prática espiritual dos povos nativos do Norte que se dá em torno do que chamam de Roda Sagrada ou Roda da Medicina. Estes ensinamentos são parte integral da espiritualidade das tribos nativas do Canadá e da América do Norte. Embora existam diferenças quanto aos atributos, animais, cores e posturas corporais de cada uma das direções cardeais, a noção de movimento, mudança e crescimento ao longo do processo de vida do caminhar em torno de um centro mostra-se presente na tradição de todas as tribos. Central a esta prática está a noção do círculo sagrado: “Tudo que o poder do mundo faz é feito em círculos” (Black Elk Speaks, 1930). O povo indígena faz seus acampamentos em círculos, senta-se em círculos ao redor do fogo para celebrar e contar histórias. O sol é um círculo e circunda a terra, assim como a lua e o arco-íris são um meio círculo. As estações do ano são um circulo e a vida é um circulo de nascimento-morte-renascimento. O universo trabalha e se move em círculos. A espiritualidade nativa está fundamentada na noção de que somos todos parte do grande círculo da vida. A matemática do círculoO círculo é uma representação plana da esfera, a forma geométrica sólida mais perfeita do nosso universo. “É notável que as imagens psíquicas de inteireza, espontaneamente produzidas pelo inconsciente, os símbolos do Self na mandala, também têm uma estrutura matemática . Via de regra são quaternidades ou seus múltiplos” (CW#8 par 870). A mandala e seu centro, seja este implícito ou explícito, tem um efeito ordenador do mundo e da psique, e os números psicologicamente considerados são um arquétipo de ordem que se tornou consciente (Ibidem). Hilmann (1996 p. 94) diz que a matemática é tradicionalmente uma das ferramentas que funciona como ponte, que nos permite esta conexão entre o mundo visível e o invisível. Segundo Von Franz (1974 p. ix) Jung sugere ainda em 1916, no seu trabalho sobre a sincronicidade, que seria possível caminhar na direção da realização da unidade da psique e matéria, do unus mundus, através da pesquisa dos arquétipos dos números naturais. No final de sua vida ele entregou a tarefa desta pesquisa para Von Franz, que desenvolve esta idéia e diz que o número é, não apenas uma construção da consciência, mas sobretudo um elemento constituinte da natureza. De fato ela chega à conclusão de que seriam a estrutura psíquica à priori da psique e da consciência (1974, p. 302). Ela desenvolve, ao longo do livro, a noção de que a seqüência dos primeiros quatro números naturais inteiros corresponde aos estágios progressivos de desenvolvimento da consciência. Em resumo, o um corresponde ao estágio da não diferenciação, é a participation mystique onde homem e natureza são o mesmo; o dois corresponde à polaridade e dualidade, são os opostos que geram a tensão que possibilita o surgimento do três; o três é o princípio dinâmico de movimento e resolução de tensão; o quatro é a estabilidade e inteireza.
O número zero Na notação matemática o círculo representa o zero, o nada que tudo pode e tudo transforma pelo simples fato de anunciar a presença do ausente, de tornar visível o invisível. Esta é uma finalidade da Roda Sagrada, trazer para o mundo visível a presença do espírito invisível que permeia o mundo. Zero Cheifs é o nome que se dá a um restrito grupo de sábios iniciadores da tradição da Roda da Medicina. Descendentes dos Maias, eles são detentores de um conhecimento sofisticado da matemática. Hyemeyhosts Storm, autor de Seven Arrows (1975), foi iniciado por Estcheemah, mulher sábia e uma dos zero cheifs. Ela lhe mostrou a importância da consciência da grande honra de estarmos presentes na terra e podermos aprender com os mestres primeiros da natureza, com a mãe terra, pai ceu, avó lua, com os anciões do mar, das montanhas, com o reino dos quatro patas e dos alados. Enfim, com todas as inúmeras formas produzidas pela natureza que apontam para a unidade da vida, para o unus mundus. De dentro de uma roda sagrada o mundo se torna simbólico e cada elemento, animado ou inanimado, sobre o qual repousa o olhar, torna-se para o ser que está construindo a sua roda um mensageiro daquela direção. O círculo e a transcendência O círculo traz inscrito em si, na relação entre sua circunferência e diâmetro, a transcendência do número Pi. Pi é citado na bíblia nos versos I Reis 7, 23 e II Chronicles 4, 2 por ter sido usado em 950AC na construção do templo do sábio Rei Salomão e, ainda mais cedo, num papiro egípcio datado de 1650 Ac (www-history.mcs.standrews.ac. uk/HistTopics/Pi_through_the_ages.html) Pi, um número transcendente, sem valor determinado, é 3 seguido por uma sequência infinita de algarismos sem repetição de padrão, sem ordem ou rítmo aparente. A beleza disto é que temos uma representação de um infinito desordenado contido e descrito através de uma relação, dentro da área delimitada por qualquer círculo traçado ou imaginado. Em 1999, com a ajuda de computadores, Pi foi calculado com a minúcia de mais de duzentas e seis bilhões de casas decimais, confirmando a ausência de qualquer padrão repetitivo, numa demonstração matemática do caos que subjaz à ordem. Pi é transcendente, por sua natureza indeterminável, infinito. Da mesma forma, entre dois números naturais existe um infinito de números irracionais e, por mais que o valor se aproxime, nunca chega, “o buraco não se fecha” e resta um pedaço por preencher. É por esta abertura, por este pedaço de falta entre um e outro, que se torna possível a entrada do espírito. Transcender etimologicamente deriva de trans, atravessar e cendere, subir, significando ir além dos limites, dirigir-se ao infinito. A função postulada por Jung, e considerada um ponto central da sua teoria, trata das relações entre o consciente e o inconsciente, do finito com o infinito, do humano com o divino. A função transcendente permite uma passagem, uma travessia para um nível mais abrangente de consciência(CW # 6 par 828). È a possibilidade de dirigir-se ao infinito sem se dissolver nele, submetendo-se à tensão da dualidade tempo suficiente para que surja o três, o tertio non datur , num fluir renovado da energia que estava bloqueada entre um pólo e outro para uma nova direção, um novo ponto. E como nos diz Maria Profetisa, “do três vem o um no quatro”. Este quatro, ou novo um, o momento de inteireza e estabilidade, só é atingido depois de percorrido o caminho. Da mesma forma, os nativos norte Americanos nos dizem que é apenas depois de percorrer toda uma volta da Roda que se chega à inteireza (Storm 1975, p. 7). Von Franz (1980, p 93) percebeu esta compreensão intuitiva dos nativos norte Americanos no desenho moderno de um Navajo, onde o um e o quatro são idênticos e contêm as outras três figuras:
O circulo e sua divisão quaternária estão presentes na espiritualidade indígena das Américas de norte a sul. No entanto, neste trabalho, vou me concentrar na cosmovisão dos nativos do Norte, mas não sem antes mencionar que muitos destes elementos são encontrados, com a mesma importância, também na visão e vivências dos nativos do Sul. Kaká Werá (2001 p.78) conta em um dos mitos de criação do mundo do povo Guarani que “...além do eixo da terra são erguidas quatro colunas de sustentação da terra : o nascente, o poente, o sul e o norte, e que os antigos pajés chamam também veladamente de “as quatro respirações da Grande Mãe” . Os ensinamentos da Roda Sagrada nos proporcionam uma cosmovisão onde o ser humano é parte da natureza. Sua tarefa será a de percorrer o círculo sagrado da vida aprendendo a especificidade de cada uma das direções. Cada um de nós nasce em um dos quatro pontos cardeais. Esta condição nos confere certos dons, o ponto de partida, a visão que sempre nos será a mais natural e imediata. O indivíduo pode permanecer nesta visão por toda vida, aprofundando os dons que lhe foram dados, mas não será um ser inteiro. Se quiser crescer, terá que se tornar um “buscador”. O buscador questiona, e com seu questionamento faz girar a roda. Donald Williams (1981, p17) conta-nos que os povos nativos Americanos dizem que a diferença entre um guerreiro e um homem é que o homem encontra na vida problemas para serem resolvidos, enquanto o guerreiro encontra nos problemas um desafio para viver mais profundamente. È vivendo intensamente estes desafios que o guerreiro sustenta a tensão dos pontos de vista das direções opostas, movimenta-se em torno da roda e coloca-a em movimento. Os ensinamentos das quatro direções Os índios norte-americanos dizem que o mundo se apresenta como um grande espelho. Cada elemento no nosso caminho é objeto para reflexão. Segundo Jung (CW#11 par 235) a reflexão não é apenas um ato do pensamento, mas uma atitude, um ato espiritual onde assumimos uma relação com aquilo sobre o qual nos debruçamos. O grande espelho que é o mundo só se mostra aos poucos, à medida que somos capazes de refletir sobre cada um dos pedaços. São ao todo sete pedaços, cada um com seu ensinamento: as quatro direções cardeais, mais as três direções do ser humano inserido no mundo: para cima -pai céu-, para baixo - mãe terra- e, e finalmente, para dentro – para nosso coração. “Quando você aprende a colocar estes sete pedaços de espelho juntos, dentro de você, descobre que tem sete mais. E assim por diante, seus reflexos prosseguem para sempre.” (Hyemeyohsts, 1972, pg. 20) No Este, lugar do nascer do sol, está a cor amarela. Seu elemento é o fogo e o animal, a águia, o lugar da visão panorâmica , do todo. A águia voa alto e lá de cima vê os desenhos da terra. Iluminação e clareza de visão são os dons do Este; dizer a verdade, sua responsabilidade. A postura é o caminhar , o canto é a forma de cura e os sinos o seu instrumento. No Sul está a cor verde da natureza, ou o vermelho do coração. Seu elemento é a terra e o animal o ratinho do campo: para conhecer as coisas ele chega bem perto e toca ou sente com seus bigodes sensíveis. O Sul é o lugar do coração aberto aos mundos interno e externo,da inocência, da troca e da reciprocidade. Relação é o dom do Sul , o contar histórias a forma de cura e o tambor seu instrumento. No Oeste, onde o sol se põe está o preto, a noite e o encontro com o desconhecido. Este é o lugar de nossos ancestrais a quem invocamos para nos ensinar e ajudar a encontrar a nossa própria unicidade. È a direção do urso que por meses hiberna nas cavernas, a direção da visão interna. Àgua é seu elemento e introspecção e confiança seus dons, o estar aberto ao processo sem apego aos resultados das nossas ações. É a direção do mestre interno, o silêncio sua cura é e o bater de paus, ou ossos, seu instrumento. No Norte está a cor branca. Esta é a direção do serviço e do poder. O animal é o búfalo, que se entrega à morte para a vida da tribo. Cada pedaço de seu corpo tem utilidade para a manutenção da vida: sua carne é alimento, sua pele abrigo, seus ossos viram instrumentos diversos , seus tendões fazem cordas e seus dentes adornos. Ele se coloca a serviço da tribo. O norte é a direção do ficar de pé, da sabedoria do encontro com o próprio poder. O seu dom é a capacidade de presença. O ar é seu elemento, a dança sua forma de cura e o chocalho seu instrumento. Alem das quatro direções há ainda as três outras que nos inserem e ancoram no mundo tri-dimensional: para cima, para baixo e por fim para o próprio coração que bate e pulsa o rítmo da vida. Somente quando se completa toda uma volta o indivíduo torna-se inteiro e consciente de ter dentro de si sempre outras voltas mais por dar. Para finalizar esta matemática indígena, a humanidade, o grande um que contêm a multiplicidade de seus membros, é o oitavo elemento observador destes espelhos do mundo. O Processo de Individuação Para Jung, o processo de individuação, de vir a ser aquilo que sempre fomos, é uma circumambulação (?) em torno de um núcleo numinoso, do arquétipo central – o arquétipo do Self. Este arquétipo central é paradoxal, ao mesmo tempo centro e circunferência, um e outro, origem e meta da integração da personalidade. O caminho não é linear, mas circular ou espiralado. “Não há evolução linear, há apenas uma circumambulação (?) do Self. “ (Jung 1961 p. 196). Ao olhar algo a partir de diversos ângulos, construímos uma imagem mais completa, mais cheia de significado. No processo de dar voltas derramamos significado dentro das experiências emprestando-lhes vida e energia. A circumambulação (?) na psicologia analítica é o processo onde damos voltas em torno de um centro, um símbolo para que a mudança criativa possa acontecer (CW# 12 par 186) O círculo delimita um campo, um temenos. Campo este não apenas da nossa consciência, onde o ego é considerado centro, mas um campo mais abrangente e inclusivo, com um centro ordenador com o qual o ego precisa se relacionar. É justamente a necessidade de busca do guerreiro que cria a possibilidade de relação com este lugar mais profundo que leva o indivíduo a circumambular o centro. “ O ego está em relação com o Self como o movido está para o movedor.....” (Jung, CW#11, par 391). Neumann diz que “o arquétipo tem dois pés porque toda imagem psíquica tem seu fator no mundo externo” (1973, pg. 84). Com estes dois pés, um no mundo externo e outro no interno, trilhamos o caminho da Roda sagrada. O Self central nunca é experimentado diretamente, mas sempre através de representações de imagens, de símbolos. “O “núcleo” do campo arquetípico é seu aspecto mais imperceptível. Sua existência, no entanto, pode ser vista como consistindo do “um” que segura todos os outros uns. .....desta forma todo arquétipo é o centro virtual de um campo de conteúdos representacionais (Von Franz, 1974, p.147). Oração e Imaginação : girando a roda Para os nativos tudo é sagrado, tudo é vivo. O exercício da oração é feito de olhos abertos num testemunho constante da presença que tudo permeia. O olhar pousa e repousa sobre elementos do mundo animado ou inanimado onde a vida está sempre igualmente presente. Torna-se necessário apenas aprender a ver o invisível no visível: “Seria muito simples se apenas a simplicidade não fosse o mais difícil de tudo” (CW# 13 par 20).
Esta capacidade visionária dos nativos se assemelha de forma inequívoca ao processo da imaginatio dos alquimistas. Desenvolver a visão é desenvolver a imaginação, o poder de criar imagens que falam da verdadeira natureza dos objetos, diferente da ilusão ou fantasia que é uma mera brincadeira ( Jung # 12 par 219) A vera imaginatio exige tempo, paciência, dedicação, atenção e respeito, num processo onde nós incubamos o mundo, enquanto o mundo nos incuba. “A imaginatio, como entendida pelos alquimistas é, na verdade, a chave que abre a porta para o segredo da opus” (Jung 1944 #12, par 400). E a opus trata da possibilidade de tornar-se inteiro. Na linguagem da Roda, a opus é a percepção da unidade, interconexão e inserção do ser humano no universo. A imaginatio alquímica tornou-se na prática da psicologia analítica em técnica da Imaginação Ativa “..... aquilo que coloca o processo em movimento “ (Jung 1944 # 12, par 357). A ênfase deve estar na palavra “ativa” : é uma participação ativa da consciência que recebe, reconhece a veracidade e interage com as imagens que surgem. È um caminhar com os dois pés do arquétipo, como mencionado antes. Para chegar à realização desta imanência da vida em tudo que existe é necessário estar muito tempo com ela e dentro dela com uma atitude de reverência. Esta é a forma de oração dos nativos, um olhar e estar no mundo ativa e receptivamente com todos os sentidos do corpo e da alma. Para os sábios nativos é a partir da experiência pessoal de estar conectado, de ser parte da natureza, que se dá a epifania do sagrado. Uma “receita” quaternária estrutural ! Para fechar quero mencionar uma recomendação que encerra os ensinamentos mencionados. Os nativos passam seus conhecimentos através de histórias e brincadeiras. Esta receita utiliza a imagem dos ossos, a base interna e concreta de nossa estrutura corporal que, junto com os músculos, permite movimento ao nosso corpo. A “receita” diz que para sermos felizes precisamos conectarmo-nos com “os quatro ossos” : the backbone (o osso das costas) aponta para a necessidade de sustentação, de ficar de pé no mundo, de um eixo e conexão de cima a baixo. The funny bone ( o osso engraçado) é aquele da ponta do cotovelo que, às vezes, com o menor esbarro, lança uma sensação de formigamento por todo braço. Ele fala da importância do humor e do riso, da sabedoria do divertir-se. The wish bone (o osso do desejo) fala da necessidade dos sonhos, da vontade e do desejo que nos impulsionam no caminho. Finalmente, the little hollow bone (o pequeno osso oco), refere-se ao osso do dedo mindinho que, como outros, permite a circulação do sangue por dentro, quando vivo e do vento,quando seco. Este pequeno osso nos faz lembrar que devemos ser abertos para permitir a passagem do espírito dentro de nós, fala de saber -se instrumento de algo maior. É o fazer do não fazer – é permitir que o processo de desenvolvimento possa acontecer sem interferências, apenas com o leve aquecimento acolhedor do nosso olhar amoroso para nós mesmos inseridos no mundo.
Bibliografia
ELK, B. et al. (1967) Being the Life Story of a Holy Man of the Oglala Sioux. Nebraska: University of Nebraska Press. HILLMAN, J. (1996) The Soul’s code: in search of character and calling. New York: Warner Books Edition. JECUPÉ, K.W. (2001) Tupã Tenondé. São Paulo:Peirópolis.
JUNG, C.G. (1956) Psychological Types. Princeton Univ Press: Bollingen CW# 6. 1985. _________ (1960) The Structure and Dynamics of The Psyche. Princeton Univ Press: Bollingen CW# 8. 1981. _________(1958) Psychology and Religion:East and West. Princeton Univ Press: Bollingen CW# 11. 1977. _________(1953) Psychology and Alchemy. Princeton Univ Press: Bollingen CW# 12. 1993. _________(1967) Alchemical studies. Princeton Univ Press: Bollingen CW# 13. 1983. _________(1961) Memories Dreams and Reflections. New York:Vintage Books. 1984.
HYEMEYOHSTS, S. (1972) Seven Arrows. New York:Ballantine Books. 1972. NEUMANN, E.(1973) The Child. Boston, Mass: Shambhala Publications Inc. 1990. VON FRANZ, M L. (1974) Number and time. Evanston:Northwestern University Press. ____________(1980) Dvination and synchronicity. WILLIAMS, D. (1981) Border Crossings: a psychological perspective on Carlos Castanedas path of knowledge. Inner City Books. TO, Canada.
|