Amor entre mãe e filha: Deméter e Perséfone
Zelita Seabra
Entender o feminino - objeto de pesquisas da antropologia, da sociologia e da psicologia con- temporâneas - é algo que pode ser questionado. Existe a psiquê feminina? Embora não seja unânime, a resposta afirmativa é o ponto de partida para a preocupação de identificar e des- crever seus traços principais. A análise de Freud da sexualidade feminina, se não foi o marco inicial, é contribuição valiosa para o esforço coletivo de aprofundar esse conhecimento. Este capítulo se insere nesse esforço ao abordar um aspecto do psiquismo feminino: a relação mãe e filha. Outra pergunta poderia ser colocada: por que deusas? Não seria idealizar, falsear a relação? A questão nos remete à obra que empreende a defesa da validade do mito.1 Resumindo sua afirmação central: os mitos não são histórias falsas. Ao contrário, refletem a camada mais profunda e perene do psiquismo humano. Por que a história de duas deusas? Porque essa história é nossa antes de a termos conhecido. Porque entramos no mito toda vez que em nosso cotidiano nos deparamos com o eterno. Vivências do cotidiano e do eterno, em proporções desiguais, fazem o bordado do laço que existe entre mãe e filha, de certa maneira, o mais rico entre os laços humanos. 0 mito de Deméter e Perséfone lança uma luz que torna visíveis mil facetas do relacionamento mais catexiado com emoções opostas. Pouca atenção lhe tem sido dada, talvez por lhe faltar a dimensão do trágico. Passa despercebido ao lado de figuras como Édipo, Átis, Adônis, Hamlet, protagonistas na relação mãe e filho, mais intensa e, por vezes, devastadora. 0 rela- cionamento entre pai e filha tem sua representação mais clássica em Electra, que inspirou os três poetas trágicos, cada um retratando de ângulos diferentes a mesma paixão. A força re- pressora mesclada à ternura impressionou a imaginação através dos séculos, criando relatos sobre Zeus e Palas Atena, Agamemnon e Ifigênia, Wotan e Brunnhild, Lear e Cordélia e, com Eugene O'Neill, Electra novamente. A dramaticidade na relação mãe e filha é mais sutil e si- lenciosa. Mas observação e reflexão nos levam a perceber os contornos e meandros dessa great unritten story. Se a reflexão tem o mito como modelo, a observação é trazida pelo cotidiano: experiências no trabalho clínico, de pessoas ao longo da vida e minha própria experiência. Mito e cotidiano são os fios que tecem um quadro - o retrato de mãe e filha - que nos toca por ter certas qua- lidades que lhe são próprias. A primeira é uma intimidade absoluta, particular a essa relação que impressiona tanto por suas manifestações positivas como negativas. Adrienne Rich ex- plica-a como tendo uma fundamentação biológica: Tão essencial e única quanto a intimidade, a outra qualidade é uma dimensão de continuidade analisada por Jung: Tão essencial e única quanto a intimidade, a outra qualidade é uma dimensão de continuidade analisada por Jung: Intimidade e continuidade revelam que mãe e filha são dois pólos do mesmo ser: mulher. Criativa ou destrutivamente, a filha busca na mãe sua identidade; a mãe busca realização na existência da filha. Uma existência dá sentido à outra. A intimidade em seus múltiplos aspectos, tanto na fruição e no gozo como no sofrimento que ela gera, está descrita na primeira parte da exposicão: a convivência das duas deusas. 0 tema da continuidade é desenvolvido na parte final: o retorno e o não-retorno. A ruptura das duas vivências está contida na segunda e terceira partes: o rapto e a ausência. São interpre- tações que procuram desvendar, absorver e integrar um mito que, no entanto, foi e continua sendo inesgotável. Nas palavras de Helen Luke: ... uma sementeira de experiência feminina para mulheres de todos os tempos e lugares .4Antes de entrarmos no relato do mito e como fecho para esta introdução sobre a psiquê femi- nina, quero transcrever um comentário que me parece sua melhor síntese. Colhidas no come- ço do século por Frobenius e citadas por Kerenyi, são palavras de uma nobre etíope que eco- am com a simplicidade e a atemporalidade da imagem da sementeira: Como pode um homem saber o que é uma mulher? A vida da mulher é inteiramente diferente da dos homens; Deus assim o fez. 0 homem permanece o mesmo, do dia de sua circuncisão até o seu declínio. Ele é o mesmo, antes de ter pela primeira vez procurado uma mulher, e depois. No dia em que uma mu- lher conhece o primeiro amor, sua vida se cinde em duas partes. Nesse dia ela se torna outra.Depois do primeiro amor, o homem é igual ao que ele era antes; a mulher é, a partir do dia do seu pri- meiro amor, uma outra. É assim durante toda a sua vida. 0 homem passa uma noite junto a uma mulher, e depois ele se vai: sua vida e seu corpo são sempre iguais. A mulher concebe: como mãe ela é dife- rente da mulher sem filhos. Primeiro, ela traz no seu corpo durante nove meses a seqüência da noite. Alguma coisa cresce na sua vida para depois dela se destacar, mas dela não desaparecerá mais, pois ela é mãe. Ela é e permanecerá mãe, mes mo se o filho, se todos os filhos viessem a morrer. Pois antes, ela trouxe o filho sob seu co- ração. Mais tarde, quando ele nasce, ela o traz no seu coração. E de seu coração ele não sairá mais. Mesmo se ele morre. Tudo isso o homem não conhece; ele não sabe. Ele não conhece a diferença que há entre "antes do amor" e "depois do amor", antes da maternidade e depois da maternidade. Ele não pode saber nada sobre isso. Só uma mulher pode sabê-lo e disso falar; é por isso que nós não nos deixamos persuadir por nossos maridos. Uma mulher só pode fazer uma coisa. Ela pode cuidar-se. Ela pode conservar-se decentemente. Ela deve ser aquilo que sua natureza é. Ela deve ser sempre a jovem e ser mãe. Antes de cada amor ela é a jovem, depois de cada amor ela é mãe. É nisso que poderás reconhecer se ela é urna mulher boa ou não.5
0 MITO A história aqui narrada é um resumo do Hino a Deméter, atribuído a Homero.6 É a fonte mais antiga e rica em detalhes do mito das duas deusas. Naquele dia, Deméter, deusa do grão e da colheita, cuidando de cobrir a terra de verdura, flores e fru- tos, não estava junto à filha, a linda Perséfône, também chamada Core.* A jovem brincava com as ninfas no campo de Nísia; teciam coroas e guirlandas "misturando violetas e íris, rosas, jacintos e lí- rios". Atraída pelo perfume do narciso "de cem ramos", Core afasta-se das companheiras e debruça- se para colher um botão que floria na borda de um pe- nhasco. Nesse momento a terra se abre e surge da fenda o deus da morte e do mundo subterrâneo, Hades, que a carrega, apesar de seus gritos, em seu carro puxado por "imortais cavalos", para Hades, seu reino. Perséfone grita pedindo a Zeus que a sal- ve, sem suspeitar que o rapto tinha sido tramado pelo filho de Cronos com seu irmão, o senhor de Ha- des.Naquele dia, Deméter, deusa do grão e da colheita, cuidando de cobrir a terra de verdura, flores e fru- tos, não estava junto à filha, a linda Perséfône, também chamada Core.* A jovem brincava com as ninfas no campo de Nísia; teciam coroas e guirlandas "misturando violetas e íris, rosas, jacintos e lí- rios". Atraída pelo perfume do narciso "de cem ramos", Core afasta-se das companheiras e debruça- se para colher um botão que floria na borda de um pe- nhasco. Nesse momento a terra se abre e surge da fenda o deus da morte e do mundo subterrâneo, Hades, que a carrega, apesar de seus gritos, em seu carro puxado por "imortais cavalos", para Hades, seu reino. Perséfone grita pedindo a Zeus que a sal- ve, sem suspeitar que o rapto tinha sido tramado pelo filho de Cronos com seu irmão, o senhor de Ha- des. Do fundo de sua gruta, Hécate, deusa da sombra e da tênue luz da lua, nada vê, mas ouve o grito de Core. Distante, "através dos picos das montanhas e das profundezas do mar", Demé ter também o ou- ve. Durante nove dias sem comer nem se lavar, carregando tochas, ela procura a filha. Na aurora do décimo dia, Hécate vem a seu encontro e diz à deusa inconsolável que sabia que sua filha tinha sido raptada mas não sabia por quem. Juntas, vão perguntar ao Sol, o deus Hélio, que tudo vê no seu curso pelo céu. 0 deus resplandecente conta que Perséfone tinha sido dada por Zeus a Hades para ser sua esposa e rainha do reino dos mortos, e volta para as alturas no seu carro de luz, deixando imersa em escuro desespero a deusa Deméter. Desfigurada pela dor e vestida em andrajos, ela dirige-se, então, para as cidades dos homens. Uma tarde, tendo chegado ao reino de Elêusis, ela se senta à beira de uma fonte chamada Fonte das Donzelas, à sombra de uma oliveira. As filhas do rei vêm apanhar água e aproxi- mam-se de Deméter. Quando esta lhes diz que busca trabalho como ama, as jovens levam- na a seus pais. Coberta com escuro manto, a deusa entra no palácio onde a recebem com respeito. Recusa o vinho que lhe é ofe- recido mas aceita uma bebida feita com cevada e água. A rainha entrega-lhe seu filho recém-nascido. Deméter, que o recebe "em seu colo perfuma- do", co- meça a dar-lhe cuidados para que ele cresça "como se fora o filho de um deus": unta-o com ambrosia e à noite, secretamente, coloca-o sobre chamas para que ele se torne imortal. Uma noite, a rainha, insone e "com pensamentos tolos ", deixa seu "quarto perfumado" e vai ver o filho entregue à ama. Surpreende-a segurando a criança sobre o fogo e solta um grito apavorado. Com isso impede que o filho se torne imortal. "Ondas de terrível ira" atravessam a deusa que, dando-se a conhecer, repreende a mãe por ter privado o filho da imortalidade. Revelada a presença da deusa, os reis e o povo de Elêusis erigem-lhe magnífico templo. Pa- ra dentro dele Deméter se retira e entrega-se à saudade da filha. A dor cresce em seu peito; seu luto e desespero começam a transbordar trazendo destruição sobre a terra. Naquele ano terrível nenhuma semente brotou; a humanidade teria perecido pela fome e os deuses esta- riam para sempre privados das ofe- rendas e sacrifícios dos homens se Zeus "não tivesse percebido isso e ponderado em sua mente". A deusa Íris é a primeira mensageira que vem implorar a Deméter que aceite o convite para vir ao Olim- po receber grandes honras e que devolva a fertilidade aos campos dos homens. Deméter, inabalável em sua vingança, recusa-se a atender a Íris e a todos os deuses que vêm, um por um, suplicar que re- tire seu castigo. Declara que nenhuma semente brotará enquanto não lhe for devolvida Perséfone. Finalmente, Zeus envia Hermes ao Hades para pedir ao senhor dos mortos que concorde em ceder a esposa à sua mãe. Hades dá seu consentimento; Core, exultante, prepara-se para partir. Na despedida, o marido pede- lhe que coma com ele alguns gomos de romã. Depois de compartilharem a fruta, Persé fone salta no carro dourado de Hermes: e "puxados por cavalos de longas asas" atravessam os mares, os picos das montanhas, e chegam ao bosque perto do templo. Mãe e filha correm em direção uma a outra e abra- çam-se numa alegria sem limites. Subitamente, Deméter sus peita de um embuste e pergunta à filha se tinha comido alguma coisa enquanto estava no mundo subterrâneo. Perséfone lembra-se de ter par- tilhado a romã com o marido, e sua mãe sabe então que só a terá de volta por dois terços do ano. Um terço a filha terá que passar com Hades no reino dos mortos. Por isso durante uma terça parte do ano tudo seca e morre na natureza. E todos os anos, quando Core volta, tudo volta a brotar. Sua volta traz a primavera - sua mãe cobre a terra de flores. Depois de um dia de muitos abraços e de contarem uma a outra tudo o que lhes tinha acontecido, na alegria de estarem novamente juntas, Deméter chamou os governantes da cidade e os instruiu na ce- lebração de um ritual. Os Mistérios de Elêusis foram fundados para que a cada ano se repetisse aque- le encontro entre Deméter e Perséfone. Então, as duas deusas partiram para o Olimpo e aí estão jun- tas, na companhia dos deuses. *Core (paroxítona, mas o e final é audível) significa a jovem. Aparece freqüente e alternativamente com o nome de Perséfone.
ANÁLISE DO MITO Ao terminar a leitura da história, a impressão de beleza e majestade leva-nos a um momento de muito silêncio. Tendo conhecido o mito, o impulso é deixá-lo intocado. Não analisar, in- terpretar, nem relacioná-lo com nossa experiência. Pois em que termos e em que linguagem isso poderia ser feito? Fui buscar no campo essas respostas e, em meio a brumas, ciprestes e canto de galo, estava eu mais uma vez diante da dificuldade de falar sobre o inefável, de di- zer o indizível. Como dizer o amanhecer? Como falar de Deméter e de Perséfone? Lembrei-me da aula de José Américo Pessanha sobre Heráclito: "Pensar é esgueirar-se entre as palavras e as coisas. Dizer é trair as coisas. Para não dizer traindo, tenho que trair o meu dizer. Tenho que dizer não dizendo. Digo-não-digo: O deus é dia noite; inverno verão; guerra paz; saciedade fome." A dificuldade aqui não é só falar sobre uma realidade mística - a relação de duas deusas. É difícil também por ser uma história de mulheres. Vamos lembrar alguns versos do início do hi- no:
De sua própria natureza, a vida das mulheres escoa, desliza muito perto das coisas. Por is- so, diz Eugénie Lemoine-Luccioni, cabe à mulher o fruir, o desfrutar, o gozar, "e é na medida em que ela goza que ela se cala".' A jouissance é própria das mulheres e é indizível. A capa- cidade de sentir - gozo ou dor - veda às mulheres o acesso à linguagem. A linguagem não faz parte do partage - a parte que lhe cabe, seus haveres. Parece drástica a afirmação mas, para mim, seu sentido foi desenvolvido e elaborado por Serge Leclaire em palestra no Rio. A lingua gem que falamos, ele expôs, é a linguagem dos homens: criada pelos homens para uso dos homens. A mulher que quer comunicar seu pensamento usa uma língua que lhe é alheia. Pode manejá-la com precisão e brilho, mas não é sua. As mulheres ainda não descobriram a força que teriam usando uma linguagem sua. Isso aqui está sendo tentado, mas requer um aprendizado. Vamos entrar num mundo de mulheres e falar de tudo que nele se encontra.
A convivência das duas deusas
Se busco dentro de mim uma imagem, a mais remota, na qual apreendi a essência do femi- nino, veio uma cena no quarto de meus pais. Mas o quarto de minha lembrança está cheio de mulheres. Eu deveria ter então quatro anos. 0 quarto era pequeno para os móveis enormes que continha. Um guarda-vestido e um guarda- casaca muito altos, com portas de espelhos, de madeira envernizada com um brilho meio ver- melho e incrustações de madeira amarelo-claro, fazendo desenho de leques nos cantos das portas. Uma penteadeira toda cercada de espelhos que refletiam frascos de cristal; tinha pequenas gavetas que eram um fascínio, com caixas de perfumes e de pó-de-arroz e, entre a tampa da caixa e o pó, uma espécie de esponja levíssima que quando a gente soprava parecia voar. Uma cama de casal com um medalhão de madeira clara desenhado na cabeceira. A cama u- sualmente era coberta com um forro de cetim e, sobre este, uma colcha de cambraia branca com bordados abertos; no centro, outro medalhão de renda de filé fazendo o desenho de um cupido. No quadro que em mim ficou gravado, a colcha de cambraia tinha sido dobrada; sobre traves- seiros e deitadas no forro de cetim, duas mulheres amigas de minha mãe, e talvez minha mãe fosse uma delas, amamentavam seus bebês. Tinham tirado seus vestidos e estavam de combinações de cores claras, também de cetim. Outras mulheres estavam em volta, senta- das nos pés da cama e na banqueta da penteadeira. Todas falavam ao mesmo tempo e riam. Eu, a mais velha de muitas crianças que vieram depois, fui naturalmente admitida a um mo- mento que era todo suavidade e graça. Participava de um mundo colorido e cheio de perfu- mes, de brilho de espelhos, cetins e cristais, um mundo cujo significado e mistério eu busca- ria sempre decifrar. Não se perpetuou como símbolo de maternidade mas de algo em que a maternidade simplesmente está inserida. Algo mais leve - uma realidade que ecoa dentro de mim como notas arpejadas, tênues, doces, traduzindo a experiência do ferninino em sua mais pura essência. A essência do feminino é compartilhada pelas duas deusas. Deméter significa mãe-terra. Ter- ra, no sentido cósmico, é Géia, esposa de Urano, o céu. A terra de que aqui se fala é a terra cultivada, que produz alimento. Tanto na vida individual como na da espécie, o ser humano associa mulher a alimento. Deméter, entre os gregos, personifica essa associação. Filha de Cronos e Réia, irmã de Zeus, de Posêidon e de Hades, da mais antiga nobreza do Olimpo, é a deusa da agricultura, do grão e da colheita. Sua presença tem a majestade das grandes ár- vores e a força de raízes profundas. Ampla, generosa, doadora de vida e de beleza, amada e venerada por toda a Hélade, sua principal característica é de ser uma deusa-mãe. Símbolo de fertilidade e fartura, tem como traço marcante o amor pela filha. Perséfone distingue-se entre as jovens deusas do Olimpo por esse fato: é apaixonadamente amada pela mãe. Isso talvez explique o ar que lhe é tão característico de juventude e inocên- cia. Core é a jovem primordial, a jovem divina, a jovem eterna. Encarna o brotar, o novo, o que está no começo e tem a luz e o frescor da manhã. E encarna a graça, atributo difícil de definir e descrever. Não pode ser confundida com beleza. Se beleza é proporção, graça é ritmo. Se beleza é espaço, graça é tempo. Core, por essência, é graciosa. Tem graça, simplicidade, leveza, novidade, desconhecimento, encantamento. Tem a fragilidade da beleza no seu ins- tante de perfeição que o poeta aspira reter:
* Para sempre a amarás / E ela será bela...
|
|||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
Her quest não é traduzível com facilidade: sua busca, seu ideal, tudo aquilo em que acredita, que vale a pena perseguir. Seu sonho, sua bandeira, a missão num mundo a que não tem acesso, tudo isso, num nível arquetípico, é entregue pela mãe ao filho. Deméter e Core pertencem ao mesmo mundo, que pertence só às duas. Jung o intuiu: Visto pelos homens, o mundo das mulheres é impregnado de uma intimidade que os intriga. Espanta, por exemplo, ver com que facilidade as mulheres se tocam - uma pede a outra que a ajude a abotoar-se, uma pede a outra que examine alguma coisa em seu corpo. A mãe pode levar horas penteando os cabelos da filha que, tranqüila, se deixa pentear, Em viagens, cons- tato como essa prática é universal: às vezes, em aeroportos, a mãe retira os elásticos e come- ça a escovar os cabelos da filha que nem estavam despenteados. As duas sentem ser uma boa ocupação do tempo de espera - uma escovando e a outra se deixando escovar. Estão no seu mundo. Nenhuma mulher precisa aí mostrar o caminho a outra - todas o conhecem por instinto. Mas, de certa maneira, uma busca aprender com a outra num processo infindável. Há anos que me fascina a atenção com que as meninas observam suas mães. É tão sutil o ser mulher, tão múltiplo, que a observação é intensa - nenhum detalhe pode ser perdido. Há sempre uma nuança, um efeito novo a aprender: como colocar um lenço, uma jóia, uma flor. A importância enorme que tem a opinião de uma mulher sobre a aparência da outra deve ter origem nessa fase em que uma era cuidada pela outra. A vida inteira o julgamento é esperado, a reprovação é temida, e a evidência de estar sendo aprovada causa sempre alegria, por vezes disfarçada, mas real. A evidência de estar sendo aprovada causa sempre alegria que às vezes é disfarçada. Por quê? Sentimentos diferentes dos que foram vistos até agora começam a aparecer. No exame da relação começamos a nos aproximar de seu lado sombrio. 0 laço entre mãe e filha contém também elementos escuros e explosivos que até agora não tinham sido detectados, entre eles a rivalidade. Vemos muitas vezes uma sendo observada pela outra como um inimigo que de repente revela armas secretas e poderosas. Mulher mede-se com mulher; mãe e filha concor- rem com intensidade suficiente para gerar, em certos momentos, impulsos de destruição. A queixa de uma filha: sua mãe jamais tinha lhe feito um elogio. Ao contrário, quando estavam prontas para sair, seus comentários eram sempre cortantes: "Você está com rouge demais." Depois de termos contemplado o lado idílico da convivência, percebemos que a proximidade entre as duas gera também uma carga de energia destrutiva que Adrienne Rich chama de smouldering anger - raiva fumegante. Fumegante, penso, porque abafada. 0 ódio que pode ar- der entre mãe e filha arde assim. Não como chama, mas como brasa. É uma qualidade de ódio que medra justamente na situação de total intimidade. A intimidade contínua sufoca e a iden- tificação pelos pontos negativos exaspera: cada uma vê na outra aquilo que rejeita em si mes- ma. Porque são parecidas e inescapavelmente próximas, uma conhecendo a outra por dentro, podem se atingir de forma aguda e precisa. Uma filha é capaz de ferir a mãe com mais eficácia do que qualquer outra pessoa e uma mãe tem poder para desarmar e arrasar a filha como nin- guém mais tem. É difícil e árduo caminhar, entrar em profundidade no lado negativo da relação - um ódio den- so, perplexante. É como se de repente tivéssemos perdido uma senda ensolarada e nos em- brenhado no mato fechado, sem norte. 0 trabalho de Freud sobre a sexualidade feminina fun- cionou para mim como uma bússola nessa floresta, quando descreve os primeiros anos da vida erótica feminina, desembocando num estado de profundo e intenso ódio. A explicação da psi- canálise é de clareza e ironia dolorosas. 0 ódio, constatado no trabalho clínico, é resultado e está na mesma proporção do imenso amor da menina pela mãe durante um longo período na primeira fase da vida:
Freud compraz-se numa digressão pertinente: compara essa fase da relação mãe e filha a uma cultura matriarcal que seria sucedida por uma patriarcal. No desenvolvimento individual, pros- segue o primeiro psicanalista, a mãe é o primeiro objeto do amor do ser humano. No menino esse amor torna-se mais intenso na fase edípica; na menina ele é retirado da mãe e canaliza- do para o pai. Mas a mudança é vivida com dor, dor de perda, transformando-se em ódio pela mãe. 0 pai é uma segunda escolha: a libido fica flutuando e busca um objeto. E por que se dá essa mudança? Para Freud também isso não está claro. 0 que dá como certo e que o impressiona é a dimen- são do amor que existia na filha pela mãe nessa primeira fase. É tão grande a paixão e de tal força a idealização que a vida, a realidade, só poderia frustrar. Frustrações e decepções vão preparando o terreno onde germinará o ódio. Outro fator destrutivo é o ciúme crescente de todos os que cercam a mãe, sobretudo dos ir- mãos e do pai, que nessa fase "não é mais que um incômodo rival". A existência do ódio, tenaz e presente como a do amor, manifesta-se através de pequenos de- talhes, quase imperceptíveis, como presenciei numa tarde em que um grupo de crianças brin- cava na casa de amigos. Na hora de irem embora, a mãe chama a filha para calçar a sandália. A menina estende o pé para que a mãe a calce, primeiro levantando bem a perna. Depois, com um sorriso de triunfo, vai abaixando a perna até forçar a mãe a se ajoelhar para cal- çá-la. A mãe reclama mas se ajoelha. Era visível a carga de raiva que corria entre as duas. 0 ódio toma às vezes a forma de silêncio e mentira, como confessa Nancy Friday com cora- gem e simplicidade:
Outra forma, menos freqüente, é o ataque aberto, que atinge o nível de ferocidade quando a relação se torna veículo e descarga de frustrações. São situações representadas coletivamen- te pela figura da "madrasta", às vezes desempenhada pela mãe real. Uma filha contou-me co- mo foi feita "saco de pancadas" quando a família teve que se mudar de uma cidade maior pa- ra uma cidadezinha de interior e o desespero da mãe extravasou inteiro sobre ela. Era-lhe e- xigido fazer todo o serviço da casa e cuidar dos irmãos menores, mas nem assim conseguia aplacar a ira da mãe, que a cobria de insultos e beliscões. A menina, em pânico, buscava salvação no arquétipo da mãe boa: corria para a porta da cozinha, de onde se avistava a ima- gem de Nossa Senhora da Conceição na torre da igreja e pedia-lhe uma ajuda. 0 ódio cresce em círculo vicioso: maus-tratos geram impulsos de destruir a mãe; esses im- pulsos produzem culpa, criando na filha a fantasia de que a mãe está decidida a matá-la ou a abandoná-la. Uma versão clássica dessa fantasia é a história de João e Maria: as crianças ouvem à noite os pais tramando perdê-los e deixá-los morrer na floresta. Dentro dessa mes- ma vivência, uma filha lembra que era bem pequena, num carnaval, e sua mãe mandara com- prar uma pedra de gelo. Quando voltava, viu que se aproximava um bando de mascarados, que sempre lhe tinham causado o maior pavor. Saiu na direção oposta e não encontrou mais o caminho de casa. Enquanto isso o gelo derretia, e sabia que ia resultar em levar uma surra. Passou horas andando, exausta e chorando, "preferindo até apanhar, contanto que conse- guisse voltar para casa". Até que foi achada. Em muitas versões, como no filme Sonata de outono de Bergman, o ódio é apontado como forma afetiva dominante na relação. No entanto, por abundantes e concretos que sejam os exemplos, é difícil aceitar o ódio entre mãe e filha como natural. Com todas as provas, sua existência não cessa de provocar em nós um sentimento de pasmo e tristeza, aliviado, em certa medida, quando encontramos a observação de Freud:
A última frase tem ressonância que se estende dentro de nós até a lembrança de algo que e- xistiu e que, em alguma parte e de algum modo, ainda existe. Freud a situa na esfera mais remota da história individual. Para a psicologia analítica, ela estaria num nível mais primordial ainda ou, como Jung descreve no sonho famoso da casa com porão pré-histórico, no subsolo da psiquê o nível dos arquétipos. É desse nível que ele nos fala e é para lá que o mito nos conduz. Seguindo-o, reencontraremos a vivência "muito rica e multifacetada", o aspecto da relação que nos revela que no princípio era o amor; o ódio surgiu como conseqüência da per- da do paraíso. E reencontraremos as deusas, porque o conhecimento de tal perfeição nos foi dado num espaço e tempo que transcende o pessoal, e está envolto numa aura que pertence à experiência de imortalidade. A lembrança que trazemos em nós está banhada numa luz quase divina. Assim como volta um tema musical, voltamos ao tema do paraíso - palavra grega para jardim - ao campo de Nísia, e vislumbramos mãe e filha no prado florido. Aproximamo-nos como num zoom cinematográfico: elas se movem como num balé, ora enlaçando-se num abraço, ora desprendendo-se e voltando às flores. Flutuam num encantamento mútuo com a doçura e a leveza da sonata D.960: parece-me que Schubert, com frases de tanta graça, está falando não só da natureza, como ele faz tanto, mas do feminino na natureza, de um espaço povoado de deusas. Mas não figuras etéreas. Deméter e Perséfone, nas notas da sonata ou do antigo poeta num antiquíssimo hino, estão na terra. A terra, tratada, cultivada, é o lugar natural das mulheres. Pelo uso, o campo lhes pertence. Lembro-me de um momento entre mãe e filha em que, juntas, folheavam um livro sobre ervas - The Herb Book - página por página em quase total silêncio. Nem seria possível nada dizer so- bre cada uma daquelas folhagens ali reproduzidas. 0 máximo que se consegue é emitir um "ah! " quando nova página revela ainda mais beleza: cantos de jardim em que ervas crescem e florescem entre pedras e sobre muros. Ervas. Uma informação sobre suas propriedades; o presente de algumas sementes; um vaso com salsa, alecrim, hortelã, alfavaca, rosmaninho, angélica, manjericão - valores difíceis de dimensionar. Têm a ver com a leveza das folhas, a frescura especial do verde, os poderes mágicos, o perfume e, subjacente a tudo isso, a terra. Amar a terra aproxima as mulheres. Lembro-me de uma manhã em Itaipava, a mãe desper- tando a filha. Esta, num pulo já está abrindo a janela e, olhando o brilho de tudo, o azul in- crível e aquela explosão de luz dentro de cada folha, volta-se, ela mesma toda iluminada: "Mãe, um milagre!" E havia outra maneira de dizer aquela janela? No contato com a natureza, mãe e filha abrem seus arrebatamentos mais íntimos e deixam transbordar seus sentimentos mais reservados. Mas às vezes são momentos mudos que as duas vivem mais fazendo algu- ma coisa juntas que falando. A linguagem do fazer. No fazer estão perto da terra, trabalhando frutos da terra: farinhas e massas, fios e tecidos. 0 fazer não tem apenas a função de expres- sar o sentimento de plenitude que o contato com a terra dá. 0 fazer é também um processo de elaborar a contradição que a natureza faz presente da forma mais rica e, no entanto, im- placável entre o permanente e o efêmero. 0 trabalho com a terra e com as coisas da terra en- sina a conviver com o paradoxo de algo que permanece e dura e ao mesmo tempo está em constante mudança. E sempre me pareceu que a percepção desse paradoxo fica mais agu- çada quando mãe e filha estão realmente próximas. Como se o momento de harmonia e comunhão entre as duas tivesse a mesma fragilidade das coisas que as aproximam e lhes desse uma antena para captar o efêmero da beleza que as cerca, sabendo mais agudamente nesses instantes que a rosa vive "o espaço de uma ma- nhã". No instante pleno a percepção da transitoriedade das coisas, de tudo, fica mais expos- ta, impondo um silêncio e ao mesmo tempo uma urgência à comunicação entre elas. Adrienne Rich cita um desses momentos dentro de uma relação extremamente difícil, quando mãe e filha estão andando num campo:
A sensibilidade à qualidade frágil e fugidia da beleza não é despertada apenas no encontro com a natureza. Permeia toda uma esfera da cultura feminina: o encantamento com o frívolo, a moda, a busca do adorno, do efeito sutil e momentâneo. 0 que me evoca Nova York. Uma mãe e sua filha de cinco anos, num ônibus da Quinta Ave- nida, passavam diante do magazine Saks, que sempre teve as vitrines decoradas como se fossem quadros. Naquela estação estava estreando com enorme sucesso uma companhia inglesa de balé, e a dança, mais ainda do que sempre, tornara-se a paixão da cidade. As vi- trines do Saks reproduziam cenas de bailados famosos, e numa dela estava um vestido semi- longo azul claro vaporosíssimo. A menina no ônibus segurou com força o braço da mãe: "Quando você vê um vestido assim tão lindo, você sabe que um dia ele vai ser velho, você não sente na boca um gosto de chorar? " Porque a vida dos objetos de beleza é curta, há um gozo intenso em seu uso. Usar, escolher, comprar: atividades muitas vezes impregnadas de alegria pueril e incontida. Uma cena do fil- me 0 conformista, de Bertolucci, capta esse estado de euforia. Já é noite. Paris. Numa praça coberta de neve as duas mulheres, rindo, entram e saem de lojas de roupas e acessórios. 0 riso, a beleza dos dois rostos, as luzes, o requinte e o luxo das vitrines, tudo tem o mesmo tipo especial de brilho - glitter -, brilho de coisa frágil que reluz, que pisca como estrela ou en- feite de Natal. 0 brilho do efêmero na convivência das duas deusas... vamos deixar Kerenyi di- zê-lo:
Quando a alma, humana ou divina, conhece a perfeição, experimenta simultaneamente o co- ração apertar-se com medo. Um sopro frio prenuncia que o efêmero - aquilo que só dura um dia - vai se cumprir. Isso é intuído na hora de maior beleza que precede o fim, na visão que a mãe não sabe e sabe que será a última. A filha numa longa camisola solta, os movimentos e os cabelos livres, os pés desaparecendo, como que flutuando na inocência, caminhando en- tretida, avançando pelo campo florido. Foi assim que a viu pela última vez.
0 rapto Não é fácil acompanhar a transição penosa entre a convivência e a ausência; viver junto com as duas deusas a violência da intimidade invadida, cortada, rompida. 0 cenário, em toda a sua limpidez:
No quadro de brilho no céu, no mar e em toda a terra será vivido o momento de tensão entre a experiência de união com a mãe e a experiência de união com o homem. 0 hino faz sentir a pregnância desse momento. Há uma mudança na luz sobre o campo de Nísia - é mais inten- sa. E a mudança é mostrada dentro de Core, como se ela despertasse. Afasta-se das compa- nheiras. Chamada pela sensualidade, atraída, inebriada pelo narciso com sua profusão de "cem ramos de doce perfume", ela debruçase estendendo as duas mãos para colher um bo- tão. E a terra se abre,
. 0 homem irrompe na história como elemento de violência. 0 encontro com o masculino é a- presentado como um seqüestro e um estupro. Em alguns povos o rapto faz parte do ritual do casamento. Encena, como no mito, a experiência profunda da mulher de ser violentada na sua maneira de ser, de perder o ritmo de vida que conhecera até então. Nas palavras de Ga- briel Marcel citadas por Nor Hall, o estupro "é substituir seu ritmo pelo ritmo de outro".17 A transformação que ocorre nas vidas de mãe e filha não é ritualizada na nossa cultura. Ao contrário, parece que tudo leva a disfarçá-la. Mesmo quando há o aparato do casamento, as duas encobrem com preparativos e enxoval o fato de estarem fazendo alguma coisa juntas, só delas, pela última vez. Uma filha falou-me da mágoa que tinha de sua última noite em casa dos pais. Parentes de outro estado se hospedaram com eles, e ela, como sempre, tinha cedido sua cama. "Claro que estava feliz", contava, "mas naquela noite pensei que era estranho eu estar dormindo no chão e não na minha cama." Os olhos encheram-se de lágrimas: doía lembrar que ninguém se dera conta de ser sua última noite em casa. "Faltou um carinho de despedida." Multa coisa falta. Falta verbalizar, conscientizar esses momentos de passagem. Na hora da cerimônia de casamento, a despedida entre pai e filha é ritualizada; entre mãe e filha é como se nada de especial estivesse acontecendo. A atenção é só para os detalhes. Talvez por ser tão difícil a passagem. Só pode ser dita como foi no mito: a terra se abre e a filha desapare- ce. A energia que emerge rompendo a totalidade mãe-filha é personificada por Hades, senhor do reino dos mortos e do mundo subterrâneo. A transição que se faz em um átimo entre o reino da mãe e o reino do marido é a passagem entre o conhecimento da vida e o conhecimento da morte, e é personificada por Core. Kerenyi estende-se sobre seu significado simbólico:
0 conhecimento da morte associado ao encontro com o masculino não se refere apenas ao rompimento da unidade mãe-filha. Refere-se também à experiência de passagem - a inicia- ção, ritualizada em muitas culturas, envolvendo sofrimento e uma vivência de morte. Hades, senhor dos mortos; Hades, mundo subterrâneo; Perséfone, rainha do reino da morte: são i- magens arquetípicas dessa vivência. No estudo sobre Core, Kerenyi desdobra esse aspecto do símbolo:
A morte é vista como transformação. Core morre, no sentido de que não será mais a mesma. Algo morre para que algo possa começar. Sedução, aponta Nor Hall, tem o mesmo radical de educação. Significa desviar, conduzir numa outra direção. E essa alteração era e é necessá- ria. Uma relação dual não pode se eternizar imutável. A relação viva contém força de destrui- ção e de renovação. Como no opus alquímico, todo processo de crescimento e transformação tem que passar pelo putrefactio, atravessa uma deterioração. Voltando a Nor Hall:
Como no longo e sofrido trabalho alquímico, à oper ção do putrefactio segue-se o estado do nigredo.
Deméter ouve a ressonância da voz da filha. 0 hino nos faz sentir que é enorme a distância que agora separa as duas deusas.
A ausência
No primeiro momento do mais absoluto desespero, a mãe se ataca: arranca suas vestes. A necessidade é de fazer consigo mesma o que lhe tinha sido feito: tinha-lhe sido arrancado um pedaço. Tinha sido despida de tudo o que tinha de bom, belo, jovem, perfeito. No ataque feroz está contido também um castigo com o pensamento inevitável, comenta Christine Downing, de que sua perda poderia ter sido evitada, de que se havia descuidado e permitido o que a- contecera. Esse primeiro instante -breve - é imediatamente seguido pelo impulso de resgatar a filha. 0 sofrimento de Deméter, tonta e como cega, buscando Perséfone, dificilmente pode ser descrito com mais profundidade que por Helen Luke:
A aurora do décimo dia marca o fim do luto obstinado e solitário. De profundis começa a vis- lumbrar algum caminho. 0 auxílio lhe vem de Hécate, deusa lunar, sombria, simbolizando o lado mediúnico, intuitivo, da mulher. 0 acesso a essa dimensão propicia a Deméter sair de seu torpor, e as duas deusas prosseguem juntas. Carregam tochas - símbolo que será per- petuado no ritual de Elêusis - até encontrarem o "vigia de deuses e homens" que tudo vê de seu carro de luz, Hélio. 0 Sol, a razão, talvez tenha uma explicação para orientá-la em seu sofrimento. A orientação é terrível: o deus tenta consolá-la cantando os méritos do marido aprovado por Zeus e com quem o próprio rei do Olimpo tinha planejado o rapto de sua filha. "Como pássaros de longas asas", os cavalos transportam para as alturas o carro do Sol, deixando Deméter imersa numa dor ainda mais selvagem e escura. Agora que conhece o causador de sua perda, seu ódio volta-se contra Zeus e a assembléia dos deuses. E ela dirige-se para as cidades dos homens Temos que voltar atrás para acompanhar a história de Perséfone:
... e ela lançou um grito agudo... 0 grito foi ignorado por Zeus, que tramara o rapto com Hades. 0 deus supremo havia decidido que a união simbiótica seria rompida pelo senhor dos mortos. Essa passagem lembra-me a experiência de uma mãe que encomendara sua carta astroló- gica. Na consulta, a astróloga expunha a posição e a influência de cada corpo celeste, nas diferentes datas, no céu. Em certa data, diz ela, deveria ter havido uma profunda mudança em sua vida. A cliente confirma: naquela data precisa, por motivos vários e inesperados, sua úl- tima filha tinha saído de casa para ir morar fora do país. A mudança tão profunda e violenta ti- nha sido como uma morte. "Sim", responde a astróloga, "mas isso trouxe para você um gran- de crescimento. Foi Júpiter que a tirou. Quando Saturno tira alguma coisa, há parada total. Júpiter sempre tira para trazer crescimento." Zeus tirou para trazer crescimento. E nos versos seguintes do hino soa, estranhamente, uma nota de esperança:
Sentimos Perséfone cheia de vida, sofrendo ao ser levada para longe de tudo o que conhecera e amara até então, mas consciente de estar sendo arrebatada numa grande aventura. A expe- riência em que é lançada conduz à descoberta da sexualidade, ao encontro com o masculino e ao início do conhecimento dela mesma. Sua identidade lhe vai sendo revelada à medida que se distancia da mãe e vai sendo transportada - imagem perfeita da progressão em Profundida- de - para o reino de Hades. A metáfora é elaborada por Christine Downing:
Hades não é um lugar escuro e terrível, é simplesmente um outro mundo. E a filha de Demé- ter não deixa de ser filha, mas torna-se ao mesmo tempo outra: a rainha de Hades, mulher de seu rei. Às vezes um mito explica outro. Na história de Eros e Psiquê, uma das tarefas que Afrodite impõe a Psiquê é a de ir ao Hades e trazer a caixa de beleza de Perséfone. Por que a deusa da beleza quereria essa caixa? Talvez por ser Perséfone senhora do conhe- cimento de uma outra beleza que, fora do mundo dos mortos, não podemos possuir. Em Ho- mero, dois epítetos sempre acompanham seu nome - a bela e terrível Perséfone. E são multas as referências a sua união como um casamento de amor. Como rainha e espo- sa do senhor do mundo subterrâneo inspirou poetas, como Ovídio, e artistas, como pode ser visto no museu de Atenas e como comenta Christine Downing:
No entanto, eu me ponho a imaginar como ela teria vivido a ausência total de Deméter. Imagi- no-a feliz com o marido destinado por Zeus, mas quando penso nisso penso também no que me contou uma jovem, casada há poucos anos. Casamento desejado por ela, pelo marido, pelas famílias de ambos. Depois da cerimônia saí- ram para alguns dias de lua-de-mel e aí estava tudo lindo. Mas volta e meia vinha-lhe ao pen- samento uma perplexidade que causava profunda mágoa. Não acreditava, não se conformava que a mãe tivesse deixado que ela fosse embora. A transformação de Perséfone é súbita, violenta. A de Deméter é lenta, árdua, Perséfone bruscamente percebe-se diferente, descobre-se outra. Deméter vai mudando sem saber, a- través do tempo. Através dos dias vai deixando para trás seu mando sobre a terra. Vestida de andrajos, errante pelas cidades dos homens, lentamente o encontro com a razão - o Sol - vai orientando seus passos e trabalhando sua mente. Helen Luke tece essa passagem com ex- periências nossas em que "o raciocínio calmo do Sol nos afetou" e sabemos que é preciso continuar e que só com o trabalho será possível atravessar a perda:
Na história de Ísis, cuja peregrinação tanto se assemelha à de Deméter, nessa parada, à beira da fonte, ela penteia e perfuma os cabelos das jovens. Imagino Deméter fazendo o mes- mo. Fazer. A solução, a saída, o caminho, a salvação, a resposta unânime das mulheres que se deparam assim, bruscamente esvaziadas. E Deméter entrega-se ao cuidado de uma criança. Entregar-se parece-me o termo correto, pois o mito narra que ela o quis fazer imortal, isto é, semelhante a ela. A idéia da imortalidade, acredito, inconscientemente apavorou a rainha mais do que o fogo. Quando a divindade de Deméter é revelada, a mãe deve ter compreendido plenamente o risco que correra de perder o filho para uma deusa. Depois do episódio de Elêusis, Deméter recai. Um templo é erigido em sua honra. Em vão. Seu desespero leva-a novamente até o fundo. Sua dor é negra. E transforma-se em flagelo:
Zeus envia primeiro a deusa Íris, a mensageira mais colorida e luminosa, com presentes e convite para que vá ao Olimpo conversar. Deméter a ignora. Os deuses todos vêm, um por um, suplicar-lhe que suspenda o flagelo:
0 deus supremo do Olimpo, "trovejante e de ampla visão", curva-se diante da energia deses- perada e inabalável de Deméter, e envia Hermes ao Hades com a missão de convencer seu rei a ceder Perséfone para que venha ao encontro de sua mãe.
0 retorno e o não-retorno O pensamento religioso dos gregos concebia o universo como tendo uma força, uma lei, uma divindade, um princípio acima dos deuses: a Moira. A palavra, como muitas no grego arcaico, tem origem na agricultura e significa lote. De acor- do com esse princípio, deuses e homens têm seu lote: os deuses têm sua província; os ho- mens têm seu destino.25 A decisão agora está fora da província "daquele que se alegra com o raio e com o trovão". Depende do senhor da morte. Hades, "de escura cabeleira" atende Zeus com grande dignidade; despede-se de Perséfone com palavras de amor e de respeito, oferecendo-lhe sua proteção. Mas pede-lhe que coma com ele e com isso garante seu retorno. Muito já foi discutido sobre o significado da romã: símbolo sexual? Só suposições. Segredo de Hades. Perséfone faz a viagem no carro dourado conduzido por Hermes; Deméter ouve a chegada e sai do templo:
Alguma coisa no abraço faz Deméter sentir que a filha não é nem nunca mais será totalmente sua:
E explica à filha a consequencia do ato: voltará para o marido uma estação cada ano!
Soa com toda a sinceridade a resposta da filha:
Mas, e é em passagens como esta que o hino solene e sagrado tem também graça e encan- to, ela não conta exatamente a verdade. Helen Luke comenta que Perséfone queria e não queria atender ao marido: ... toma os bagos de romã involuntariamente, mas voluntariamente os engole. Apesar de todos os seus protestos, ela não tinha nenhuma intenção de voltar à identificação com a mãe. Isto é uma i- magem de como o evento salvador pode acontecer no inconsciente antes que a consciência pos- sa apreendê-lo. Existem muitos sonhos em que o sonhador tenta voltar a alguma coisa ou si tuação antiga mas encontra, por exemplo, a porta trancada ou o telefone quebrado. 0 Ego ainda anseia pe- lo status quo mas, num outro nível, o preço já foi pago e não podemos voltar. Daí o grande valor dos sonhos em nos fazer perceber os movimentos no nível profundo.26 Essa análise da psiquê em seus vários níveis descreve bem o reencontro das deusas. Num plano, mãe e filha sofrem com a limitação do tempo juntas, mas em outro as duas sabem que a separação traz um novo começo. E muita coisa continua aberta entre as duas - a alegria e o carinho são completos:
No entanto, há algo novo - um clima, um espírito - na união das duas. Há uma luz diferente. Para mim, esse clima em música é encontrado no quarteto de Mozart dedicado a Haydn, K387, sobretudo no segundo movimento - andante cantabile. A harmonia que envolve as deu- sas, como a peça de Mozart, tem uma qualidade especial de medida. Não mais o transbor- damento schubertiano de alegria e doçura. Agora são duas rainhas que se encontram, se a- mam com um amor imenso mas que tem um limite. Há medida em tudo o que as duas vivem. Há medida no tempo que mãe e filha vão Ter juntas. Há medida na entrega, na união entre as duas. União, intimidade, carinho, não mais paixão; nunca mais fusão. Em meio à ternura, mãe e filha descobrem-se também estranhas. Cada uma vê na outra algo que antes nunca tinha visto. Aquela presença tão íntima não é completamente conhecida. Há uma distância, um espaço, um respeito, um reconhecimento de que aquela pessoa, a pessoa mais próxima, é uma outra. É bom lembrar que estamos acompanhando um mito, uma história exemplar, arquetípica. No cotidiano, esse equilíbrio e essa harmonia são buscados, perseguidos, mas raramente alcançados. A visão do final da história é de estado de graça. Vivência de ordem, de "silêncio das coisas em seus lugares". A expressão de Guimarães Rosa me veio à mente quando ouvi o sonho de uma mãe-filha: Sonhei com uma árvore enorme, linda. No meio do tronco tinha um buraco grande de onde saía uma terra escura, uma terra boa. Em volta da árvore havia uma escada. Eu subia muitos de- graus. A meio caminho, numa volta da escada, havia um patamar. Eu me sentava ali e pensava: "Este é o meu lugar. É aqui que eu quero ficar." Pareceu-me um sonho síntese de caminho, mulher, árvore, terra, ascensão, busca e encontro de lugar. Deméter e Core sabem que têm um lugar seu, das duas, do encontro. Mas cada uma tem também o seu lugar. Essa é a dialética do encontro: é a separação que lhe dá sentido. Por- que existe a separação, o ciclo se completa a cada ano, tudo renasce: a volta da filha traz de volta a primavera. 0 reencontro de mãe e filha, cada vez que se renova, é um exercício de alteridade. Difícil, exigindo lucidez e destreza, porque é grande a tentação de esquecer que a outra não é uma outra versão de si mesma. É um esforço contínuo, um aprendizado nunca concluído, mas é uma belíssima aventura, uma graça, um privilégio. Mãe e filha desafiam-se e enriquecem-se mutuamente. A relação das duas é fonte de energia que, como toda energia, não é boa nem má: tanto pode gerar destruição como pode gerar movimento, ação, vida. Se vívida autenticamente, é um campo plantado onde encontram alimento para seguir cada uma seu caminho de individuação.
0 RITUAL Três gerações de mulheres estão presentes no final do hino. Réia, mãe de Zeus e de Demé- ter, vem transmitir o convite para que a deusa do grão volte ao Olímpo, onde o senhor do trovão e deus supremo a espera com muitas honras. Aconselha a filha a suspender o castigo terrível:
A deusa reassume sua tarefa de alimentar os homens e dá vazão à sua felicidade derraman- do beleza sobre a terra. Mas a história não poderia terminar simplesmente com um final feliz. 0 significado de toda a experiência teria que ser mais e sempre aprofundado. Um ritual deveria perpetuar sua lembrança. Deméter instrui os governantes a celebrá-lo para o povo:
São escassas e inseguras as informações que temos hoje sobre esse ritual. De acordo com os que se dedicam a seu estudo, depois de os objetos do culto serem trazidos pelos sacer- dotes havia uma cerimônia na beira da praia com um ritual de purificação nas águas do mar. Seguia-se uma procissão que se iniciava ao cair da noite, na qual um grande número de par- ticipantes carregava tochas em memória da peregrinação de Deméter procurando Core até chegar ao recinto do mistério. No santuário só eram admitidos os que iam ser iniciados e o que aí se passava era segredo absoluto: A lei de Atenas punia com a morte tanto aqueles que, por curiosidade, tentavam penetrar nos Mistérios de Elêusis como aqueles que indiscretamente transmitiam-nos aos profanos.27 É importante lembrar que toda a cerimônia não era uma simples representação alegórica e sim um Mistério. Por isso era tão guardado e por isso não pôde ser compreendido. Os relatos são unânimes em transmitir que no momento supremo da revelação, em meio a um silêncio de morte, o sacerdote elevava uma espiga debulhada que era contemplada com a maior vene- ração pelos iniciados. Todos os que participavam do grande mistério voltavam transformados. Elêusis é um ritual feminino que ensina aos homens e às mulheres que mortalidade e imor- talidade são parte da essência e da existência humanas. A medida, que vimos no final do hi- no dar força e beleza à relação mãe e filha, é a dimensão do mistério dentro de cada uma, o mistério dentro de cada ser. Com a simplicidade do encontro entre o humano e o divino:
Notas bibliográficas
|