Dra. Nise Magalhães da Silveira

1905 - 1999

 

 

A Sociedade Brasileira de Psicologia Analítica (SBPA-RJ) se solidariza a todos aqueles que em seu anseio de mudança encontraram na Dra. Nise da Silveira uma pioneira, uma desbravadora dos caminhos que conduzem de volta à dignidade humana aqueles de há muito eram considerados indignos sequer da convivência social. Nossa homenagem é a alguém que foi além disso e introduziu a arte como parceira e guia neste caminho de se re-descobrir. Sabedora das dificuldades de lidar com as sutilezas da alma convidou para co-terapeutas os animais, seus parceiros, amigos e colegas de trabalho.

Entendemos que a melhor forma de homenagear alguém tão especial seria através do depoimento daqueles que tiveram uma convivência próxima, um encontro, uma leitura... uma presença de Nise dentro de si para compartilhar e poder dizer aos que buscam - "Pessoas como estas, são raras, mas existem".

 

 

TRÊS ROSAS PARA NISE

Eu não sabia bem porque, mas foram três as rosas que quis e pus no seu caixão.. Quando olhei seu rosto, pensei, no forte desejo que tive de estar presente nesse momento, no respeito e admiração que sinto por voce e em como pude perceber na beleza de uma paz quase alegre, as marcas de uma vida bem vivida.

Nise mulher, brasileira e livre. Te admiro pelo que voce soube fazer com esses atributos, de como foi abrindo caminho, através de preconceitos. e estruturas caducas. Me lembrei que foram três as vêzes. que me encontrei com voce e descobri que em cada uma delas ganhei uma rosa.

Grata Nise

                      Gloria Lotfi

       

 

Nise : Sophia

Trabalhando, desde 1992 como colaboradora na casa das Palmeiras , tive o privilégio de manter um relacionamento profundo , afetuoso e generoso com a Dra. Nise.

Lembro-me, com saudades de um de nossos encontros, minha mestra contando-me um sonho que tivera com uma grande amiga que partira para outras dimensões. O tema do sonho era sobre a morte. Ela comentou :

"......eu dançava muito alegre . Então interpretei que a morte não é uma coisa tão terrível. É dançável e alegre........."

Uma breve pausa, entreolhamo-nos , um silencio profundo em seguida ela continuou "aconteceu uma outra coisa curiosa ! : dois índios vieram visitar-me . Conversamos, almoçamos e tudo foi muito agradável. No dia seguinte veio um só índio e comentou "Eu voltei porque sonhei com minha avó e ela disse para que eu voltasse aquí e convidasse a senhora para ser MÃE NATUREZA ! , minha mãe !

Fiquei impressionadíssima ! Depois o índio continuou : Nós estamos muito cansados destas selvagerias dos brancos, não estamos ? Eu disse "Os brancos são realmente selvagens "

O ïndio disse "Nós vamos embora e quando chegar a hora de nós partirmos , veja uma luz vermelha, uma estrela. Lá é nosso lugar !"

Muito atenta com o que escutara, ousei perguntar o que Dra. Nise imaginara. Ela respondeu:

"'E a morte. A morte mas como uma coisa boa. Sair da selvageria branca e ir para um lugar que só pode ser bom. Como essa estrela, essa luz vermelha, junto com o índio"

Ultimamente Dra. Nise trazia consigo um belo livro ilustrado com imagens simbólicas do Sol. Permanecia em estado de contemplação , analisando as imagens com profundidade e sabedoria. Pareciam momentos sagrados de transcendência da vida.

Creio que Dra. Nise está neste lugar, Lugar da estrela, do Sol dançando alegre. Espaço reservado para os seres que se doaram de forma tãp plena, cuja intuição sensibilidade e criatividade esculpiu sua vida e trabalho. Vida e obra encarnadas numa só unidade e essa totalidade é Nise Magalhães da Silveira.

Ave Nise

Saudades

                       Vera Macedo

 

 

 

Dra. Nise da Silveira - Um reconhecimento e agradecimento

No dia 02 de Setembro Vera Macedo, minha colega de formação na SPBA-RJ, levou Dr. Murray Stein para visitar Dra. Nise da Silveira.

Eu fui junto, feliz da vida, como tradutora para este encontro. Se fui para a visita feliz com a oportunidade de poder conhecer, tocar a mão que apertou a mão de Jung, e conversar com esta pessoa que conversou com Jung, saí da visita com a sensação de haver estado na presença de um sol, energizada por aquela pessoa de aparência já tão frágil.

Mesmo antes de chegar na casa da Dra. Nise, não pude deixar de ficar impressionada com a generosidade com que Dra. Nise se prontificou para receber-nos na sua casa.

Dr. Stein estava no Brasil, cumprindo suas tarefas de presidente da IAAP, depois de visitar Buenos Aires e São Paulo.

Nossa turma, a 5a turma de formação da SBPA-RJ, o levou para almoçar depois da supervisão. Durante o almoço, conversando sobre a Psicologia Analítica no Brasil, a turma contou para Dr. Stein um pouco da história deste nosso tesouro de pessoa que era Dra. Nise, e sobre seu trabalho com as imagens do inconsciente.

Depois da apresentação da tarde, Vera que já ia visitar Dra Nise ligou para ela perguntando se ela poderia ao invés receber o Dr. Stein. Dentro de 10 minutos estávamos a caminho de sua casa.

Dra. Nise estava sentada numa cadeira de rodas diante de um livro aberto.

Ela tinha a aparência frágil, seus braços finos mas ligeiros lembravam perninhas de passarinhos, suas mãos folheavam o livro com cuidado e respeito pelas imagens que examinava.

Quis saber quem era este homem que quis conhecê-la. Dr. Stein foi apresentado e disse que veio para trazer a ela o agradecimento da IAAP pela seu trabalho na disseminação do trabalho de Jung no Brasil. A Dra. agradece mas faz pouco das palavras ditas, dando meio a entender que o passado já está longe e o que fez foi apenas trilhar o próprio caminho.

Com um algum incentivo por parte de Vera, que compartilhava com ela uma intimidade extremamente carinhosa a Dra Nise começa a falar de suas experiências.

Nos contou que Jung foi para ela um homem extremamente simples, impressão que repete por diversas vezes.

Nos contou que levou para Zurich um número de trabalhos dos seus pacientes sobre os quais queria um comentário de Jung. Jung então mandou que Aniella olhasse primeiro e averiguasse se havia consistência e solidez no trabalho - Aniella avalia que sim e Jung foi ver o trabalho da Dra. e depois conversaram em particular num cômodo à parte.

Ela perguntou a Jung como poderia penetrar (fazendo um gesto decidido e cuidadoso com a mão) nas profundezas do inconsciente que seus pacientes lhe apresentavam - ele responde: - Estude mitologia e alquimia - e Dra Nise aponta então para sua estante repleta de livros grandes e pequenos com um sorriso faceiro dizendo que é isto que vem fazendo desde então.

Dra. Nise nos contou sobre seu célebre "Não" ao eletrochoque - e sua voz vem ainda com uma força que usualmente não se escuta saindo de um corpo já tão usado. Ela tem orgulho de sua fama de rebelde, de sua independência da psiquiatria tradicional.

Gosta de todos os tipos de animais, sente que, por ocasiões, foi enganada pelo animal humano, e dos animais o gato, pela sua independência, é seu preferido.

Diz que sua maior alegria foi ter feito análise com Marie Louise Von Franz, e que esta análise continua até hoje, e seu corpo acompanha suas palavras com um sorriso de tranquilidade.

Dra. Nise nos mostra o livro que estava vendo - um livro sobre imagens do sol.

Vera lhe mostra o livro lançado no Brasil pelo Dr. Stein "Consciência Solar Consciência Lunar" - a Dra. Nise imediatamente se põe a ler e permanece absorta alguns minutos emergindo depois para dizer que parece ser interessante.

Dra Nise morreu no dia 30 de Outubro de 1999, dois meses depois desta visita.

Eu soube da sua passagem muito tarde para participar da sua última despedida, mas fica para mim uma sensação que já desde o dia desta visita, dois meses antes da sua morte, Dra. Nise vinha preparando seu próprio caminho de volta ao sol.

Nós Brasileiros Jungianos perdemos um elo com o passado - junto com a Dra Nise morre um pedaço de Jung no Brasil. Fica para nós, nosso caminho a ser trilhado, e a responsabilidade de reconhecer e agradecer o trabalho e a produção desta grande mulher.

Cynthia Pereira Lira