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Psicoterapia Junguiana O que é? Para que serve? Gloria Lotfi
Psicoterapia é um tratamento que objetiva o equilíbrio psíquico. É ministrado por psicólogos e por médicos que tenham recebido treinamento específico. Desde sempre, o homem buscou conhecer-se e ao mundo, estendendo seu interesse ao Cosmos. São diversas as abordagens sobre este tema, sendo cada técnica, a aplicação clínica de um determinado esquema teórico. Embora isso possa parecer confuso e até para algumas pessoas imbuídas de uma visão exclusivista da realidade, motivo de descrédito. Para mim é uma possibilidade criativa que se apresenta, para que, um número maior de pessoas possam compreender de acordo com sua maneira de ser, inseridos num tempo e num espaço físico e psicológico, um mesmo fenômeno, o ser humano. A psicoterapia Junguiana, baseada num tipo especifico de abordagem, desenvolvida pelo médico suíço C.G.Jung, foi a escolhida por mim por uma questão de identificação, e venho aplicando-a no meu consultório por mais de vinte anos. Jung dizia que cada homem possui um potencial criativo que se ele conseguir colocar em uso para seu benefício, irá desenvolver um estilo único de ser e agir no mundo, buscando o bem estar de si mesmo e da comunidade. Um ser humano só é desenvolvido se interagir criativamente com seu próximo, em prol de um bem comum. Na visão de Jung, quando o bebê nasce, ele não é uma tabula rasa. Pelo contrário, traz uma bagagem genética e psíquica. Não só seu corpo é resultado de uma cadeia de genes, também seu psiquismo provem de experiências ancestrais. Aquilo que Jung chamou de inconsciente coletivo, é na verdade um arquivo da história da humanidade. Toda criança nasce numa situação sócio-afetiva cultural, melhor ou pior estruturada e vai então desenvolvendo seu ego, se tornando uma pessoa com identidade. Esse caminho é permeado pelas energias arquetípicas de seu inconsciente e pelas experiências, melhores ou piores de sua condição de vida. As situações ideais são do campo das utopias, porque na realidade é impossível que uma pessoa se desenvolva sem adquirir feridas a nível psíquico. São os chamados complexos, que atrapalham o desenvolvimento e a liberdade, fixando dificuldades. Quantas vezes percebemos que repetimos comportamentos que nos fazem sofrer, como se estivéssemos trilhando um círculo vicioso, sem possibilidade de transformação. A psicoterapia dará os meios para romper essa cadeia e ganhar a possibilidade de uma vida com mais liberdade, livrando o sujeito da angústia e do sofrimento pelas inúmeras tentativas erradas de se dar bem. A psicoterapia não trata diretamente do sintoma, não age como um remédio que traz alívio mas não resolve o conflito, ela vai atender o indivíduo em toda sua plenitude, até que o sintoma possa ser eliminado porque não é mais necessário para o Ego que nessa altura já adquiriu uma maneira de ser mais livre e satisfatória. De modo geral, o sintoma só é removido num estágio mais adiantado da análise, porque se ele for retirado antes do conflito resolvido, vai acarretar uma substituição e para uma modalidade mais profunda e mais grave, porque o sintoma serve ao aparelho psíquico como uma espécie de compensação, obtem um certo equilíbrio que embora precário, impede uma quebra maior. O primeiro teórico que considerou o inconsciente foi Freud que falou do inconsciente formado na vida de cada pessoa, a partir de conteúdos suprimidos da consciência. Jung foi mais alem e falou do inconsciente coletivo, uma camada mais profunda da psique humana, comum a toda humanidade e cuja existência aproxima o ser humano contemporâneo de seus ancestrais. Quando nascemos trazemos um registro interno da história da humanidade. Esse mundo inconsciente é regido por arquétipos que são estruturas energéticas. Dentre os arquétipos destaco a importância do Self, que como centro do inconsciente, coordena o desenvolvimento pessoal, aquilo que Jung chamou de Processo de Individuação. Podemos entender por Processo de Individuação, o desenvolvimento máximo do potencial de uma pessoa, inserida num momento histórico e atuando nele. O Self trabalha durante toda uma vida utilizando como instrumento o Ego, que da uma forma e um sentido único no coletivo, cada qual com seu quinhão, cada quinhão, parte do todo. Quando existe um equilíbrio entre Self e Ego, não se precisa de psicoterapia mas na maioria das vezes, nosso Ego orienta nossa busca por pessoas e coisas que só depois percebemos que foram inúteis. que vieram atender mais a uma dependência neurótica do que a algo produtivo. O que acarreta que para chegarmos a um determinado ponto quase sempre escolhemos o caminho mais longo e mais difícil, e muitas vezes chegamos mesmo a nos perder irremediavelmente. Além do Self, temos inúmeros arquétipos, desde que o mundo é mundo, os comportamentos humanos foram se padronizando e cada comportamento padronizado formou um arquétipo. Veremos alguns que são importantes no desenvolvimento da personalidade: O Arquétipo da Grande Mãe, coordena o dinamismo matriarcal, a energia característica desse dinamismo é Eros, prazer, sensualidade, amor. Esse arquétipo é constelado numa família, principalmente no momento da chegada de um bebe. A mãe pessoal é o receptáculo ideal para essa energia, através da qual, seu bebe será cuidado, acarinhado e amado. O objetivo de Eros é unir no bem-estar que gera prazer. A ausência de uma boa vivência nesse dinamismo, vai atrapalhar no futuro a expressão sentimental do indivíduo que terá mais dificuldade de estabelecer relacionamentos, de cuidar de si mesmo, de seu corpo. São comuns, distúrbios de sono e alimentação, porque para se cuidar bem, ter boa higiene, uma alimentação adequada, conseguir um relaxamento para dormir e bem sonhar é preciso ter adquirido confiança numa boa mãe já internalizada, através de vivências nesse sentido. A energia da Grande Mãe não se manifesta apenas no cuidado amoroso com o filhote, existe também seus aspectos negativos que podemos perceber facilmente na possessividade, as vezes extrema, com que a mãe não permite que seu filho ganhe liberdade de buscar seu próprio caminho. Nesse momento surge a necessidade da energia de outro arquétipo, o Arquétipo do Pai. A energia desse arquétipo irá se manifestar principalmente, mas não só, no pai pessoal. Também qualquer pessoa disponível ligada àquela criança, e que tenha um pai adequado internalizado vai cumprir o importante papel de introduzir a criança na cultura em que ela nasceu. Qualquer falha nesse dinamismo patriarcal vai prejudicar o indivíduo em alguns aspectos específicos. Uma pessoa que não tenha vivido adequadamente os símbolos patriarcais, ordem, respeito, disciplina, estudo, etc... irá ter dificuldades variadas em torno dos mesmos símbolos, como perseguir e alcançar objetivos, com figuras de autoridade, cumprir horários, concentrar-se, fazer valer seus direitos, ocupar um bom posto de trabalho, ter compromissos e responsabilidades, etc... É a existência de um pai adequado internalizado que faz com que vençamos a preguiça e pulemos cedo da cama para cumprir nossos compromissos, mesmo num dia de sol radioso de verão no Rio de Janeiro. É a energia desse arquétipo que nos permite o sacrifício hoje em prol de um futuro melhor, sai-se da exigência imediata de prazer do Dinamismo Matriarcal, para construir com trabalho o prazer futuro. Mas nem mesmo o arquétipo é perfeito e alguém que fique fixado nesse dinamismo patriarcal vai sofrer as consequências negativas de um Pai internalizado extremamente poderoso, fazendo valer sua autoridade e sacrificando uma vida mais criativa e prazeirosa, com menos regras a serem cumpridas e mais amor. A psicoterapia vem então para equilibrar o casal parental interno, bons o suficiente para que com uma boa auto-estima estruturada, encontrarmos e ocuparmos nosso lugar na sociedade. O terceiro dinamismo que irá estruturar o Ego, é o Dinamismo de Alteridade, regido pelos arquétipos da Anima e do Animus, o Outro existente no nosso mundo interno. A Anima, faz parte do inconsciente do homem, e é o feminino que irá fazer contraponto com o Ego, tornando possível para o Eu compreender o Outro e estabelecer uma dialética criativa com ele. No inconsciente da mulher esta o Animus, com a mesma tarefa que a Anima, relativizando o poder do Ego e criando a possibilidade da relação com o que é diferente do Eu, crescendo na compreensão de quem é o outro e quem sou eu. Nesse momento, pai e mãe são afastados e o jovem procura identificação com seus companheiros, outros jovens, formando grupos, onde afinidades e atritos irão estruturar o Ego. Esse dinamismo também oferece o perigo da fixação, não são poucos os "coroas", homens e mulheres já maduros que permanecem como que na adolescência, indefinidos no que querem realmente para suas vidas. O quarto dinamismo de desenvolvimento do Ego, é o Dinamismo Cósmico, regido pelo arquétipo do Velho Sábio. A sabedoria é prêmio de uma vida bem vivida e nesse momento, será através dela, a percepção de qual o verdadeiro sentido da vida individual inserida como parte de um Todo, e com essa compreensão buscar-se-á a transcendência. A fixação que pode ocorrer é a amargura de quem não consegue a sabedoria. Nessa hora de transcender desejos, as antigas frustrações podem retornar como correntes prendendo o ego na amargura do que poderia ter sido mas não foi, o Velho Sábio então se retira e no seu lugar estará o velho decadente. Em todos esses momentos de desenvolvimento do Ser, a psicoterapia vem contribuir para o auto-conhecimento, a descoberta de quem verdadeiramente somos.
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