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O SUJEITO DA RECUSA EM TEMPOS DE GLOBALIZAÇÃO Fernando Cesar Rodrigues Cavalheiro
"O homem civilizado colocado em meio ao caminhar de uma civilização que se enriquece continuamente de pensamentos, de experiências e de problemas, pode sentir-se ‘cansado’ da vida, mas não ‘pleno’ dela. Com efeito, ele não pode jamais apossar-se senão de uma parte ínfima do que a vida do espírito incessantemente produz, ele não pode captar senão o provisório e nunca o definitivo". Na era da globalização, paradoxalmente, chama atenção o isolamento do sujeito. Imerso na dualidade da tradição, ora pretende ser aí o vencedor ora daí se retirar. Globalização, essa palavra fácil, união da comunicação mas separação do sujeito, diz respeito à identidade, uma pretensa unidade que não suporta a diferença. Por isso, ela rima com exclusão. Porém, quem é excluído? Na extensão da resposta corre-se o risco de perder-se a certeza dos lados. A clareza da comunicação oculta a névoa que perpassa a consciência. A comunicação satura o espaço e revela o vazio das palavras que sofregamente tentam dizer algo, fazer algum sentido. Mas o sentido foi substituído pela vivência, essa experiência solitária que es- tranhamente habita a comunicação. Comunicação entre surdos, que são soterrados nos escombros de informações, vomitadas antes de qualquer elaboração. Na paixão, o sujeito prescinde do objeto. Ele é um apaixonado a priori, o outro é mera conseqüência, mutável, descartável. A existência desse sujeito viabiliza o espaço virtual. De seu esconderijo ele emite sons captados por satélites, e as palavras se tocam, se ena- moram, independentes do sujeito que as emitiu. No amor o outro é essencial, pois que este somente surge na relação e a posteriori. Pressupõe a presença e a permanência, num lugar em que a palavra não comunica mas nomeia. O sujeito de hoje, até parecido com o da tradição, é um ser apaixonado. Narcisicamente apaixonado, que fez da comunicação seu escudo, por trás do qual goza com seu próprio discurso. Numa primeira aproximação o excluído é o objeto, o outro. Assemelhando-se à ciência o outro é objeto de experiência, a distância. Mas não há nessa experimentação o desejo de analisar o objeto, nem muito menos desvelar a sua verdade. Uma melhor visada nos permite ver que aí não há uma experimentação mas uma demonstração. Nos moldes de um teorema, existe uma verdade que deverá ser demonstrada numa exposição — a idéia da negação, do não absoluto: "Ora, essa idéia de algo que não está, essa idéia do não ou da negação, que não é dada nem possível de ser dada na experiência, só pode ser objeto de demonstração" (1). Nessa demonstração o que se visa é a soberania da razão, isto é, a exclusividade do sujeito, que faz da razão seu instrumento, não para possuir o objeto, como na ciência, mas para destrui-lo. A tática não é mais de dominação mas de aniquilamento. A dominação, fruto do conhecimento que tem na ciência a sua mais apurada expressão, radicaliza-se. Quando então não se suporta o outro nem mesmo dominado é preciso eliminá-lo. A vontade que ainda quer nesse sujeito é a vontade de nada. O homem reativo não suportou ter Deus como testemunha de seu niilismo e o elimi nou. Agora, o último dos homens, seqüência da série, não suporta um espelho que lhe revele a diferença, que po- deria fazê-lo voltar a querer. Ele está cansado de querer. O sujeito da ciência visa fazer da natureza o palco de suas experiências, para daí retirar-lhe a verdade. Verdade da natureza, de Deus, da vida ou... um sentido. Essa é sua convicção. O sujeito da recusa, globalizado, visa destruir a natureza para provar que por trás o que existe é o nada. Ele é tomado por uma "idéia de uma natureza primária, portadora da negação pura, acima dos reinos e das leis, e que seria inclu- sive liberada da necessidade de criar, de conservar e de individuar: sem fundo além de qualquer fundo, delírio original, caos primordial feito unicamente de moléculas furiosas e dilacerantes"(2). Esse sujeito pretende o ilimitado. Porém, o nada não se apresenta, no máximo se representa: "Mas essa natureza original, precisamente, não pode ser dada: só a natureza segunda forma o mundo da experiência, e a negação só é dada nos processos parciais do negativo"(3). Essa sua interdição, que o re- mete a repetir infinitamente a demonstração, na ilusão de alcançar o nada e festejar a vitória da razão enlouquecida. Já podemos ver a insatisfação que atormenta esse sujeito. O único ilimitado que consegue é a ilimitada repetição da experiência demonstrativa. Há nesse processo uma cadeia, a cadeia do gozo. Mas de um gozo sem prazer pois que sem saciedade, sem plenitude. O desejo, que é desejo de nada, utiliza-se do objeto para gozar na sua destruição que faria aparecer o nada, a suprema diluição da vida. O gozo sádico, que Sade nos apresenta em seus escritos, nos dá a dimensão das cenas que se repetem num gozo ininterrupto que nunca sacia. A cadeia sádica encena-se hoje, por exemplo, no conluio da economia com a política. O mercado e os políticos se põem numa cadeia em que a reversibilidade dos papéis confunde o observador desatento. Aqueles se dizem incluídos. O dinheiro e o poder são o valor, o valor de nada, que ao invés de levá-los à plenitude, remete-os, com toda força, ao vazio, fazendo-os reiniciar a cadeia. O último homem deseja a morte por cansaço. A opção, assustadora, que nos é apresentada é a de entrar nessa cadeia ou a exclusão. Qual o maior suplício? Não é à toa que o estresse é o mal atual. Aceite o convite de Sade ou então... Na cadeia sádica é proibida a fertilidade. A mulher está como puro objeto para a afirmação da morte e não para qualquer sinal de vida. Em A Filosofia da Alcova a mãe é subjugada, torturada, destruída em seus valores e abandonada. A filha é a iniciada no ritual sádico, lugar em que terá que se submeter à Dolmancé, o professor responsável pela demonstração dos passos e do objetivo do ritual. Ela é objeto de demonstração, e o objetivo é a destruição da natureza a partir de seus representantes. A maneira de excluir o pai, a natureza moral, é, inicialmente, aliando- se a ele para a seguir seduzi-lo, pelo poder e pelo dinheiro, a colo- car-se acima da lei. Ao suspender a lei em troca do gozo ininterrupto, ele torna-se o agente da anarquia, do gozo do nada. Ele que pretende, na esperteza, ser o último, não se dá conta que a corrente se fecha e ele passa a ser o primeiro. Se é inevitável, goze. Deleuze tinha razão em afirmar que a serpente, com seus anéis, é o animal que melhor representa a atual sociedade(4). No manifesto aos franceses, no quinto diálogo da obra acima citada, Sade propõe a revolução permanente. Nesta proposta explicita-se a repetição e a aceleração. O movimento contínuo voltando ao mesmo ponto, sem mudança, destitui toda e qualquer forma, toda e qualquer permanência. É um puro devir, que desestabiliza tudo que é. Mas não destrói os valores, faz pior, destrói o plano onde esses valores são inscritos. O plano de imanência se dissolve no ar, ou se constitui numa geléia, impossível de se fixar qualquer coisa. Os valores flutuam sem morada. Com isso, a vontade de nada os embaralha, os confunde, fazendo com que o mal não tenha mais a cara do mal nem o bem a do bem. O que falta hoje não são valores, esses, os temos de herança, mas falta o plano de inserção dos valores que, numa espécie de ilusionismo, nos foi retirado. A ilusão opera na aceleração do movimento e na repetição do mesmo, em que só vemos a nós mesmos onde quer que vamos e o outro é eliminado. A solução perversa não deixa de ser criativa. Não posso reconhecer o outro que se encontra fora de meu raio de percepção. E caso ele se atreva a se inserir no tempo e no espaço, eu o elimino na indiferença dos sentidos, ou me divirto, por exemplo, queimando-o. O outro, de objeto de experiência, passou a objeto de demonstração da loucura da razão, e com ela se nadificou. Assim se justifica a indiferença com o outro ou sua eliminação. Eliminar o nada é nada eliminar. Nenhuma culpa. A principal característica da descrição sádica é a apatia, a frieza, o absoluto distanciamento, requinte da razão destacada do afeto. A recusa da diferença hoje se apresenta não só na sexualidade mas em qualquer outro que objete o sujeito da identidade. Esse hermafrodita aprisionado em sua plenitude narcísica, mostra-se como uma caricatura do indivíduo, cheio de maneirismos e máscaras, para dis- farçar seu falo inautêntico. Ao recusar o outro, o sujeito invalida a si mesmo, posto que não tem o tu que o identifique. Portanto, num segun- do momento é o sujeito que é excluído. Para Jung o homem moderno é aquele que tem consciência de seu tempo: "Deve-se entender bem que não é o simples fato de viver no presente que faz alguém ser moderno, pois neste caso tudo o que vive hoje seria moderno. Só é moderno aquele que tem profunda consciência do presente"(5). O homem pseudomoderno, o outro a que Jung se refere, é a nova versão do homem reativo que salta por sobre o homem moderno e se apresenta como o novo, isto é, aquele que faz parte da corrente, exclamando enraivecido: "Sai da frente dinossauro! Sombra do passado que não passa, mas que insiste em permanecer, a dizer que o que é não é, e o que não é é. Tudo é mais simples, basta pegar a felicidade e gozar". Se o homem da idade média obedecia os desígnios de Deus, certo de que encontra- ria a felicidade no reino dos céus, o pseudomoderno obedece os desígnios do não Deus mercado, tendo a certeza da felicidade aqui na terra caso esteja incluído na nova ordem religiosa fetichista: "A religião tornou-se, em nossos tempos, ‘rotina quotidiana’. Os deuses antigos abandonaram suas tumbas e, sob a forma de poderes impessoais, porque desencantados, esforçam-se por ganhar poder sobre nossas vidas, reiniciando suas lutas eternas"(6). Quem tem os fetiches tecnológicos encontra-se inserido, novo eleito, e por alguns instantes acalma sua ansiedade. Não há mais nem o velho e seguro fetiche. Ele é cambiável e dado, não é mais escolhido. Ambos os homens respondem a um ser imaginário, sendo que ao primeiro cabe a felicidade eterna, e ao segundo, a eterna felicidade passageira, renovada a cada aquisição, a cada nova dose, que lhe dá direito ao sonho, ao sonho de fuga. Weber coloca a seguinte pergunta: "Qual é, afinal, nesses termos, o sentido da ciência enquanto vocação, se estão destruídas todas as ilusões que nela divisavam o caminho que conduz ao ‘ser verdadeiro’, à ‘verdadeira arte’, `à verdadeira natureza’, ao `verdadeiro Deus’, `à verdadeira felicidade’"?(7) Hoje a ciência, com seu viés tecnológico do fetiche, partiu solenemente para demonstrar que o caminho da felicidade foi redescoberto. Redescoberto exatamente pela ilusão, o ilusionismo sofístico que afirma o mercado como o novo senhor, a nova porta da felicidade, e que com ele nada nos faltará, manipulando na retórica da propaganda a venda do sujeito ideal globalizado. A nova versão do herói é a do ilusionista. "Sob a influência dos pressupostos científicos, tanto a psique como o homem individual, e na verdade qualquer acontecimento singular, sofrem um nivelamento e um processo de deformação que distorce a imagem da realidade e a transforma em média ideal"(8). Os deuses se reergueram da tumba e o indivíduo se deitou. "O indivíduo, portanto, nes- se horizonte, possui uma importância mínima. É uma espécie em extinção"(9). Jung descreve que, ao longo de nosso século, o indivíduo foi desaparecendo nas massas, em favor do estado que toma-lhe o lugar, reduzindo-o ao anonimato. Diz Jung que "quando o indivíduo, esmagado pela sensação de sua insignificância e impotência, vê que a vida perdeu sentido — que afinal não é a mesma coisa que bem-estar social e alto padrão de vida — encontra-se a caminho da escravidão do Estado e, sem saber nem querer, se tornou seu prosélito"(10). Mas até aí, se o sujeito renuncia a julgar, um alguém coletivo se apresenta em seu lugar. Hoje, retirou-se o lugar, só há um ninguém. Colocando a palavra mercado no lugar de Estado teremos a troca do disfarce da hipocrisia pela farsa do cinismo. O capital mostrou sua face, desnudo que ficou com a falência do Estado. A arrogância do mercado reflete o temor de sua exposição. Os pseudoindivíduos crêem piamente numa nova ordem ritualística, submetendo-se aos "poderes impessoais, porque desencantados" a ponto de incorporá-los e travar essa batalha quotidiana impessoal de desaparecimento do indivíduo que se esvai numa rede de ilusões. A questão não é lamentar o desencantamento do mundo, mas sim o seu reencantamento através dessa rede, desse véu que aparvalhou o sujeito e fez com que, paradoxalmente, após cem anos de descoberta e invasão do último refúgio desconhecido, o inconsciente, a consciência soberana soçobre num jogo de ilusões, perpetrado pelos deuses renascidos que levam a razão de volta ao mito, constituindo um novo ciclo. Adorno assim se refere à relação do mito com a razão esclarecida: "Do mesmo modo que os mitos já levam a cabo o esclarecimento, assim também o esclarecimento fica cada vez mais enredado, a cada passo que dá, na mitologia"(11). E completa: "Quanto mais a maquinaria do pensamento subjuga o que existe, tanto mais cegamente ela se contenta com essa reprodução. Desse modo o esclarecimento regride à mitologia da qual jamais soube escapar. Pois, em suas figuras, a mitologia refletira a essência da ordem existente — o processo cíclico, o destino, a dominação do mundo — como a verdade e abdicara da esperança"(12). O retorno ao mito não se traduz num saudosismo ou no retorno ao passado para resgatar uma condição perdida como o neomisticismo propõe. O processo cíclico precisa da consciência exatamente como ela é, esclarecida, prepotente e alienada, pronta para ser reencantada e manipulada. A proposta de desencantar o mundo, de desmistificá-lo, parece que terminou no seu oposto. A consciência foi reencantada, e mais do que nunca, para além de Tróia, joga o jogo dos deuses. E pior, acredita ingenuamente que tem o controle sobre a guerra. Os deuses fizeram um pacto com os últimos homens, os pseudosujeitos da recusa. Enquanto os primeiros enfeitiçam o mundo e iludem a razão esclarecida, os segundos gozam na fantasia da eternidade indiferenciada. Se o uroboros é o princípio, o ciclo da vida e fonte inesgotável, o seu duplo, o ciclo da recusa, coloca-se a favor da morte, numa luta de destituição, de negação da vida, fazendo, paradoxal- mente, da razão esclarecida, sua principal adversária, agora encantada, o instrumento para alcançar o fim. No início do século Weber chamava a atenção para o sujeito que ali nascia: "O jovem norte-americano nada respeita, nem a pessoa, nem a tradição profissional, mas inclina-se diante da grandeza pessoal de qualquer indivíduo"(13). Hoje, criança grande e globalizada, esse sujeito não respeita nem questiona os valores. Ele simplesmente os ignora. Seu objetivo é o gozo, a diversão. O homem diversão reconhece a sua falta mas a recusa. E o fetiche lhe é prontamente oferecido pelo consumo. Hipnotizado na recusa e ansioso pela próxima dose, compra em qualquer prateleira o fetiche do dia e acalma sua angústia, sua falta de sentido. Mas o homem moderno não se faz de rogado, e após remover o sentido de toda a tradição, e depois queimá- lo no princípio da ciência, oferece-nos, novamente... o sentido — se é que faz algum sentido falar dele — agora no jogo do consumo. Surge a necessidade do sujeito da recusa, peça fundamental da cadeia. Ele é o motor da insatisfação, da repetição, do querer definitivo. Personagem do quero mais, até o gozo supremo, o nada, a negação total, a sua própria morte. O capital sempre encontrou suas soluções. Hoje ele oferece a felicidade, o fim da angústia, por alguns trocados, em troca do sacrifício do indivíduo. O mercado "representa uma camuflagem para todos os indivíduos que sabem manipulá- lo"(14) — a oligarquia que se esconde por trás do mercado, aliada a um estado mínimo mas de corrupção máxima. Retirou-se a incômoda palavra verdade, as outras foram destituídas como ranço metafísico, e sobrou a felicidade, outra palavra tornada fácil, vendida no camelô. Mas como qualquer crítica para os dias de hoje, tempos tão felizes e promissores, parece viscosamente depressiva, ou pessimismo de frustração, podemos sonhar com uma saída ou na ação dos deuses da contingência ou na recusa à cadeia perversa, esta, a própria crítica. Assim, na era da globalização, paradoxalmente, chama atenção o isolamento do sujeito. Imerso na dualidade da tradição, ora pretende aí ser o vencedor ora daí se retirar...
BIBLIOGRAFIA
1 - DELEUZE, GILLES. Apresentação de Sacher-Masoch. Rio de Janeiro: Ed. Taurus, 1983, p.30. 2 - Ibid., p. 29. 3 - Ibid., p. 30. 4 - DELEUZE, GILLES. Conversações. Rio de Janeiro: Ed. 34, pp.222-223. 5 - JUNG, CARL GUSTAV. Civilização em Transição, vol. X/3. Rio de Janeiro: Ed. Vozes, 1993, §149. 6 - WEBER, MAX. Ciência e Política como Vocação. São Paulo: Ed. Cultrix, 1972, p. 42. 7 - Ibid., p. 35. 8 - JUNG, CARL GUSTAV. Presente e Futuro, Vol.x/1. Rio de Janeiro: Ed. Vozes, 1988, par. 502. 9 - Ibid., par. 503. 10 - ADORNO, THEDOR. & HORKHEIMER, MAX. Dialética de Esclarecimento. Rio de Janeiro: Ed. Jorge Zahar Editor, 1994, p. 26. 11 - Ibid., p. 39. 12 - WEBER, MAX. op. cit., p. 43. 13 - JUNG, CARL GUSTAV. Presente e Futuro, op. cit., par. 504.
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